Milhares de egípcios voltam à Praça Tahir
Dezenas de milhares de egípcios voltaram aos protestos no centro do Cairo em defesa das reivindicações populares e contra o conselho militar, o qual, acusam, está a defraudar as movimentações de massas que depuseram o regime de Hosni Mubarak.
«O conselho militar está a defraudar as expectativas dos egípcios»
A Praça Tahir voltou a ser palco, sexta-feira, 8, de uma gigantesca concentração popular. Mais de 100 mil egípcios exigiram a demissão do marechal Mohamed Hussein Tantawi – que lidera o conselho militar em funções no lugar do deposto presidente Hosni Mubarak – e a substituição do regime castrense por um civil que responda às reivindicações do povo.
Anteontem, milhares de manifestantes permaneciam na simbólica Praça apesar da proibição das autoridades que, na noite de sexta-feira, reprimiram violentamente o protesto. Pelo menos duas pessoas morreram e cerca de duas dezenas terão ficado feridas quando os militares carregaram sobre a multidão disparando balas de borracha e granadas de gás lacrimogéneo.
Os confrontos alastraram às ruas adjacentes a Tahir, num cenário descrito como o de uma autêntica batalha campal. Vários veículos do exército foram incendiados. A resistência das massas acabou por se impor, já que milhares de pessoas voltaram à Praça prometendo não arredar pé até que Mohamed Tantawi transfira o poder, e os novos dirigentes garantam a detenção e julgamento de Mubarak e das antigas figuras do regime, acusadas de corrupção e apropriação indevida de fundos públicos, e responsáveis pelo assassinato de 800 pessoas durante as revoltas ocorridas entre 25 de Janeiro e 11 de Fevereiro.
Os manifestantes também não abdicam da libertação dos presos políticos, entre os quais centenas de detidos durante a recente revolta popular, mas que estão a ser julgados e condenados já com o Conselho Militar à frente dos destinos do país. Implementação de políticas que melhorem as condições de vida dos trabalhadores e do povo, e levantamento do estado de emergência, em vigor desde 1981, são também reivindicações.
Militares traidores
Para o povo egípcio, o Conselho Militar está a defraudar as expectativas populares após a queda de Mubarak. As altas chefias das forças armadas, sustentam, procuram gorar as prometidas as reformas e causar o mínimo de danos à estrutura instituída pelo Partido Nacional Democrático do ex-ditador.
Dois meses após o derrubamento de Mubarak, Tantawi, ex-ministro da Defesa do regime, é o rosto de um poder que o povo egípcio não está disposto a aceitar de volta. Na iniciativa de sexta-feira, vários oficiais egípcios apareceram na Praça Tahir juntando-se ao coro dos que chamam traidores aos militares. Em Alexandria e no porto do Suez, concentrações de milhares de pessoas, realizadas a 1 de Abril, expressaram igual preocupação para com o futuro do país.
De facto, os militares que durante as revoltas de Janeiro e Fevereiro se declararam ao lado do povo, são os que agora proíbem toda e qualquer manifestação, conforme o decreto aprovado no dia 23 de Março, e ameaçam punir severamente as lutas de massas.
A repressão dos estudantes da Universidade do Cairo ou dos trabalhadores do Delta do Nilo, no final do mês passado; as denúncias de tortura feitas pela insuspeita Amnistia Internacional e as detenções arbitrárias – como a de Tarek Zeidan, líder do grupo Jovens do 25 de Janeiro –, são exemplos de que, contrariamente ao que afirmaram inicialmente, os militares não asseguram as mudanças democráticas e progressistas defendidas pelos egípcios.
Outro facto que ilustra a deslealdade dos militares é o recente referendo constitucional. Apenas nove artigos foram alterados e sufragados, mantendo-se, por exemplo, a polémica norma que reconhece o Egipto como uma República Islâmica e admite a aplicação da sharia, facto que o regime militar usou para neutralizar a oposição dos grupos políticos de cariz confessional, nomeadamente a Irmandade Muçulmana.
Como sublinhou o Partido Comunista do Egipto (PCE) em comunicado que antecedeu o referendo de 19 de Março, é necessária uma nova Constituição que substitua o tirânico texto de 1971, e reconheça amplas liberdades e a verdadeira mudança pela qual este grande povo e os seus mártires derramaram sangue.
Para o PCE, que reitera inteira determinação em continuar a luta, é urgente a instalação de um «regime civil, democrático, baseado num Estado de direito e justiça social».