Contra o regime militar e pelo cumprimento das reivindicações populares

Milhares de egípcios voltam à Praça Tahir

De­zenas de mi­lhares de egíp­cios vol­taram aos pro­testos no centro do Cairo em de­fesa das rei­vin­di­ca­ções po­pu­lares e contra o con­selho mi­litar, o qual, acusam, está a de­fraudar as mo­vi­men­ta­ções de massas que de­pu­seram o re­gime de Hosni Mu­barak.

«O con­selho mi­litar está a de­fraudar as ex­pec­ta­tivas dos egíp­cios»

Image 7239

Foto LUSA

A Praça Tahir voltou a ser palco, sexta-feira, 8, de uma gi­gan­tesca con­cen­tração po­pular. Mais de 100 mil egíp­cios exi­giram a de­missão do ma­re­chal Mohamed Hus­sein Tan­tawi – que li­dera o con­selho mi­litar em fun­ções no lugar do de­posto pre­si­dente Hosni Mu­barak – e a subs­ti­tuição do re­gime cas­trense por um civil que res­ponda às rei­vin­di­ca­ções do povo.

An­te­ontem, mi­lhares de ma­ni­fes­tantes per­ma­ne­ciam na sim­bó­lica Praça apesar da proi­bição das au­to­ri­dades que, na noite de sexta-feira, re­pri­miram vi­o­len­ta­mente o pro­testo. Pelo menos duas pes­soas mor­reram e cerca de duas de­zenas terão fi­cado fe­ridas quando os mi­li­tares car­re­garam sobre a mul­tidão dis­pa­rando balas de bor­racha e gra­nadas de gás la­cri­mo­géneo.

Os con­frontos alas­traram às ruas ad­ja­centes a Tahir, num ce­nário des­crito como o de uma au­tên­tica ba­talha campal. Vá­rios veí­culos do exér­cito foram in­cen­di­ados. A re­sis­tência das massas acabou por se impor, já que mi­lhares de pes­soas vol­taram à Praça pro­me­tendo não ar­redar pé até que Mohamed Tan­tawi trans­fira o poder, e os novos di­ri­gentes ga­rantam a de­tenção e jul­ga­mento de Mu­barak e das an­tigas fi­guras do re­gime, acu­sadas de cor­rupção e apro­pri­ação in­de­vida de fundos pú­blicos, e res­pon­sá­veis pelo as­sas­si­nato de 800 pes­soas du­rante as re­voltas ocor­ridas entre 25 de Ja­neiro e 11 de Fe­ve­reiro.

Os ma­ni­fes­tantes também não ab­dicam da li­ber­tação dos presos po­lí­ticos, entre os quais cen­tenas de de­tidos du­rante a re­cente re­volta po­pular, mas que estão a ser jul­gados e con­de­nados já com o Con­selho Mi­litar à frente dos des­tinos do país. Im­ple­men­tação de po­lí­ticas que me­lhorem as con­di­ções de vida dos tra­ba­lha­dores e do povo, e le­van­ta­mento do es­tado de emer­gência, em vigor desde 1981, são também rei­vin­di­ca­ções.

 

Mi­li­tares trai­dores

 

Para o povo egípcio, o Con­selho Mi­litar está a de­fraudar as ex­pec­ta­tivas po­pu­lares após a queda de Mu­barak. As altas che­fias das forças ar­madas, sus­tentam, pro­curam gorar as pro­me­tidas as re­formas e causar o mí­nimo de danos à es­tru­tura ins­ti­tuída pelo Par­tido Na­ci­onal De­mo­crá­tico do ex-di­tador.

Dois meses após o der­ru­ba­mento de Mu­barak, Tan­tawi, ex-mi­nistro da De­fesa do re­gime, é o rosto de um poder que o povo egípcio não está dis­posto a aceitar de volta. Na ini­ci­a­tiva de sexta-feira, vá­rios ofi­ciais egíp­cios apa­re­ceram na Praça Tahir jun­tando-se ao coro dos que chamam trai­dores aos mi­li­tares. Em Ale­xan­dria e no porto do Suez, con­cen­tra­ções de mi­lhares de pes­soas, re­a­li­zadas a 1 de Abril, ex­pres­saram igual pre­o­cu­pação para com o fu­turo do país.

De facto, os mi­li­tares que du­rante as re­voltas de Ja­neiro e Fe­ve­reiro se de­cla­raram ao lado do povo, são os que agora proíbem toda e qual­quer ma­ni­fes­tação, con­forme o de­creto apro­vado no dia 23 de Março, e ame­açam punir se­ve­ra­mente as lutas de massas.

A re­pressão dos es­tu­dantes da Uni­ver­si­dade do Cairo ou dos tra­ba­lha­dores do Delta do Nilo, no final do mês pas­sado; as de­nún­cias de tor­tura feitas pela in­sus­peita Am­nistia In­ter­na­ci­onal e as de­ten­ções ar­bi­trá­rias – como a de Tarek Zeidan, líder do grupo Jo­vens do 25 de Ja­neiro –, são exem­plos de que, con­tra­ri­a­mente ao que afir­maram ini­ci­al­mente, os mi­li­tares não as­se­guram as mu­danças de­mo­crá­ticas e pro­gres­sistas de­fen­didas pelos egíp­cios.

Outro facto que ilustra a des­le­al­dade dos mi­li­tares é o re­cente re­fe­rendo cons­ti­tu­ci­onal. Apenas nove ar­tigos foram al­te­rados e su­fra­gados, man­tendo-se, por exemplo, a po­lé­mica norma que re­co­nhece o Egipto como uma Re­pú­blica Is­lâ­mica e ad­mite a apli­cação da sharia, facto que o re­gime mi­litar usou para neu­tra­lizar a opo­sição dos grupos po­lí­ticos de cariz con­fes­si­onal, no­me­a­da­mente a Ir­man­dade Mu­çul­mana.

Como su­bli­nhou o Par­tido Co­mu­nista do Egipto (PCE) em co­mu­ni­cado que an­te­cedeu o re­fe­rendo de 19 de Março, é ne­ces­sária uma nova Cons­ti­tuição que subs­titua o ti­râ­nico texto de 1971, e re­co­nheça am­plas li­ber­dades e a ver­da­deira mu­dança pela qual este grande povo e os seus már­tires der­ra­maram sangue.

Para o PCE, que rei­tera in­teira de­ter­mi­nação em con­ti­nuar a luta, é ur­gente a ins­ta­lação de um «re­gime civil, de­mo­crá­tico, ba­seado num Es­tado de di­reito e jus­tiça so­cial».

 



Mais artigos de: Internacional

Mais bombardeamentos sobre a Líbia

No dia em que os re­beldes lí­bios re­jei­taram a pro­posta de cessar-fogo da União Afri­cana, os go­verno da França e da Grã-Bre­tanha exi­giram à NATO a in­ten­si­fi­cação dos bom­bar­de­a­mentos contra a Líbia.

Unidade de classe e luta*

Atenas recebeu, entre os dias 6 e 10 de Abril, o 16.º Congresso da Federação Sindical Mundial, assembleia magna que reuniu mais de 800 delegados oriundos de 105 países e elegeu os novos órgãos directivos da internacional sindical de classe. George...

Globalização aumentou<br> fosso entre ricos e pobres

A globalização fez disparar a disparidade entre ricos e pobres, revelando o seu «lado obscuro». As palavras são nem mais nem menos do que do secretário-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, que, em declarações proferidas na...

Norte-americanos prosseguem luta

Milhares de trabalhadores norte-americanos aderiram, dia 4 de Abril, a uma jornada de solidariedade para com os camaradas do Estado do Wisconsin – em luta pelo direito à contratação colectiva e à organização sindical –, e contra os cortes orçamentais que se...

Israel eleva violência

Apesar do Hamas ter decretado um cessar-fogo, as forças armadas israelitas voltaram a bombardear a Faixa de Gaza. Os ataques de sexta-feira da semana passada em Khan Yunes mataram três pessoas, elevando para 19 mortos e mais de 70 feridos o número de vítimas palestinianas dos raides...