• Maurício Miguel

Comentário
Amizades

José Sócrates, o Governo do PS e o próprio PS são nossos amigos. São daqueles amigos verdadeiros, sempre prontos para ajudar quando é necessário, a dar a mão aos que dela necessitem, daqueles que não olham a esforços para ajudar os seus compinchas. São daqueles para quem «uma mão lava a outra» e «as duas lavam o rosto», o próprio ou o dos amigos. Já sabemos que na sociedade capitalista a concorrência é de valor e por isso há quem queira disputar com eles o lugar do «mais amigo de todos». Um forte adversário emerge à boca de cena, o PSD e Passos Coelho, apresentando argumentos, exibindo sorrisos e discursos que a circunstância exige. E como a amizade tem duas vias, há que reunir simpatias e apoios e se vierem do estrangeiro ainda melhor, o objectivo é nobre e a isso obriga.

Jerzy Buzek, o actual presidente do Parlamento Europeu, veio recentemente a Portugal e também ele tem muitos amigos. No seu curto périplo em Portugal deixou elogios e uma mensagem de «solidariedade» ao amigo José Sócrates, felicitando-o pela «coragem» política na imposição de medidas de austeridade. Encontrou-se com os «amigos» da família – política – Cavaco Silva e com o PSD de Passos Coelho. Já sabemos que na amizade se partilham ideias, valores e princípios, e por isso não causa estranheza a ninguém que ele tenha defendido a necessidade de juntar às medidas do Governo «reformas estruturais», nomeadamente a «reforma do mercado de trabalho», a idade da aposentação – para a sua elevação, possivelmente para 67 anos –, e do sistema de pensões. O presidente do PE teve da parte do PSD a sintonia esperada, levando para Bruxelas e Estrasburgo a garantia de Passos Coelho que «está preparado para governar» porque apoiou as medidas de austeridade e está pronto para fazer «as reformas que o PS não é capaz de fazer».

Não sabemos se Jerzy Buzek terá ouvido um «porreiro pá!» de algum dos amigos que tem por cá, como Durão Barroso ouviu aquando da assinatura do Tratado de Lisboa, mas dessas ou doutras demonstrações de afecto não se terá livrado, a benquerença é assim, e a sintonia política também tem dessas coisas.

Nestas amizades valoriza-se muito a cumplicidade e o que se discute entre amigos, entre amigos permanece. Talvez por isso José Sócrates e os amigos que ele, o seu Governo e o PS têm na União Europeia não queiram falar muito sobre o significado da «governação económica» e sobre o «pacto para a competitividade» que a amiga Ângela Merkel (Alemanha) e o amigo Nicolas Sarkozy (França) querem impor na UE. Podemos imaginar o orgulho que Sócrates, Passos Coelho e companhia sentem em tais amizades, a sua cumplicidade, e portanto, só nos resta compreender que, para eles, mais vale manter a discussão em segredo de amigos. Alimentar tais amizades e as benesses e mordomias que delas resultam é difícil, não se pense o contrário: «todos temos que fazer sacrifícios», o nosso povo tem que compreender que é necessário rever a Constituição da República Portuguesa, retirando alavancas fundamentais da soberania nacional para deixarmos de ser nós, e apenas nós, a decidir sobre o nosso futuro, transferindo-as para as grandes potências e para o grande capital. Que não restem dúvidas, isto é «uma coisa boa» para o «projecto europeu», devemos controlar as contas públicas, não vá um governo qualquer entrar em despesismos, aumentando as reformas de miséria e os salários, por pouco que seja, reduzir ou acabar com impostos que o rico e o pobre pagam indistintamente, investir na Escola e na Saúde públicas, investir na agricultura, nas pescas ou na indústria para criar emprego e satisfazer as necessidades do nosso povo.

 

Amigo do meu amigo, meu amigo é!

 

Estamos na época das redes sociais, não sabemos se Sócrates, Passos Coelho, Buzek, Durão Barroso, Merkel e Sarkozy fazem parte de uma delas e se discutem estas e outras matérias no Facebook ou em qualquer outra ferramenta do género. A julgar pela roda-viva entre os governos e as empresas, públicas e privadas, e pela forma como se deixam as mãos livres ao grande capital económico e financeiro nos paraísos fiscais e na especulação, não é de admirar que partilhem todos a mesma rede de amigos, que frequentem todos as mesmas casas de pasto, alimentando-se à mesa do grande capital. O seu tempo vai chegando, ainda que eles continuem cantando e dançando alegremente. Mais cedo que tarde, o povo saberá dar a resposta necessária. Entretanto, a luta continua!



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