A primeira vitória do levantamento popular
Ao fim de 18 dias de incessantes protestos, no Cairo e em todos os principais centros urbanos do Egipto, o presidente Hosni Mubarak renunciou ao cargo transferindo o poder para o Conselho Superior das Forças Armadas.
Comunistas egípcios apelam ao derrube completo do regime
A renúncia de Mubarak, dia 11, foi festejada na rua por milhões de egípcios e pela generalidade dos povos do Magrebe e do Médio Oriente, como uma extraordinária vitória popular sobre um regime caduco, explorador e vassalo do imperialismo.
Como refere em comunicado o Partido Comunista Egípcio (13.02), a luta prossegue pelo alcance do objectivo principal: «o derrube do regime, das suas instituições, organismos e símbolos», de acordo com a exigência das massas populares, forças e movimentos nacionais e de juventude.
Nesse sentido, os comunistas egípcios apelaram a uma manifestação, amanhã, sexta-feira, para «comemorar a revolução» e mobilizar o povo para que se assuma como «o actor principal e garante de que o processo revolucionário seguirá a direcção justa».
O anúncio, no domingo, pelo Conselho Superior das Forças Armadas da suspensão da Constituição e dissolução do parlamento, bem como do estabelecimento de um período de transição até à convocação de eleições livres e democráticas, são aspectos valorizados pelo Partido Comunista Egípcio.
Todavia, o PCE assinala que continuam sem resposta várias reivindicações fundamentais de carácter político, em primeiro lugar a criação de um conselho presidencial constituído por civis e militares durante o período de transição.
De igual modo, os comunistas apontam a necessidade de formar um governo civil de transição que substitua o gabinete chefiado por Ahmed Chafic, nomeado por Mubarak numa tentativa de acalmar os protestos. Por realizar está também a libertação dos presos políticos.
Ao mesmo tempo, o PCE sublinha a necessidade de acelerar o processo de reconhecimento e constituição de partidos políticos, sindicatos, federações e associações, de modo a que, até à realização de eleições, as diferentes forças políticas possam apresentar os respectivos programas às massas populares, fazendo uso dos meios de comunicação estatais.
Os comunistas defendem a adopção de um sistema eleitoral proporcional, já que o anterior sistema não permitiria reflectir as esperanças e aspirações de mudança das massas.
Responder às reivindicações económicas
Por outro lado, o PCE considera urgente a tomada de um conjunto de medidas de cariz económico, visando satisfazer no imediato as reivindicações que estão na base da vaga de greves que paralisa a generalidade dos sectores de actividade do país. Entre estas, destaca-se a instituição dos salários mínimo e máximo, apoios aos desempregados e a garantia por parte do Estado de direitos básicos dos cidadãos, como a educação, saúde, habitação, tributação progressiva.
O comunicado assinala que estão em curso centenas de greves, concentrações e manifestações designadamente nos sectores têxtil, de telecomunicações, metalurgia, transportes, Canal do Suez, banca, serviços do Estado e mesmo no sistema judicial. Nestas lutas que alastram a praticamente todas as regiões, os trabalhadores exigem o fim da corrupção e da tirania, aumentos salariais e a melhoria das suas condições de vida.
Na segunda-feira, cerca de dois mil trabalhadores do Banco Nacional egípcio exigiram o aumento dos salários e o fim de todos os privilégios do conselho de administração. Não muito longe dali, os funcionários de uma seguradora exigiam o saneamento do director por práticas ditatoriais. Várias situações análogas têm sido descritas por repórteres ocidentais, dando conta de que a maioria dos trabalhadores aufere salários de miséria que rondam os 100 euros mensais.
Neste quadro social, o Partido Comunista Egípcio vê a prioridade «não apenas na mudança drástica da natureza do regime autoritário, mas também no campo económico e social», salientando a urgência de recuperar «o papel de actor nacional do Egipto no mundo árabe e no plano internacional face aos interesses do imperialismo e do sionismo».