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<i>Os Pedaços de Madeira de Deus</i>

À meia-noite de 10 de Outubro de 1947 quase 20 mil trabalhadores do caminho-de-ferro Dacar-Níger, uma linha de cerca de 1300 quilómetros de extensão e verdadeiro símbolo do colonialismo francês na África Ocidental, pararam o trabalho e entraram em greve, que duraria cinco meses e dez dias. A unidade, combatividade e solidariedade reveladas criaram as condições para o desenvolvimento de uma consciência nacional e contribuíram em larga medida para a luta pela independência do Senegal.

Foi aos seus «irmãos de sindicato e a todos os sindicalistas e suas companheiras neste vasto mundo» que Sembène Ousmane dedicou Os Pedaços de Madeira de Deus, romance publicado em 1960 e que toma como inspiração esta histórica greve dos ferroviários africanos.

As suas grandes contribuições para a cultura mundial surgiram em paralelo com uma vida de trabalho e de activismo político. Já em França, para onde foi clandestinamente, trabalhou na Citröen e no porto de Marselha e foi membro do Partido Comunista Francês e da CGT. Além de ter sido um escritor comprometido, publicando vários romances e contos denunciando a exploração e tomando o partido dos trabalhadores, Sembène Ousmane assumiu da mesma forma um papel de destaque no cinema. Depois de ter voltado ao Senegal no ano da sua independência, em 1960, partiu para a União Soviética onde tira um curso de cinema, procurando por esse meio uma mais vasta difusão da sua mensagem. Dos seus filmes destacam-se La Noire de... (considerada a primeira longa-metragem de um realizador da África sub-sahariana), Ceddo e Camp de Thiaroye.

Contudo, a obra Os Pedaços de Madeira de Deus parece-nos já um guião para um filme. Desde o seu início que sabemos os cenários (Bamako, Thiès, Dacar) e as principais personagens (destacam-se quarenta, o que revela logo a posição do autor quanto à forma como os indivíduos só se movem no seio da acção colectiva). Ao longo do romance, somos transportados de um cenário para outro, não de comboio, pois esse não circula, mas pela caneta do autor. Em cada viagem e em cada estadia acompanhamos a luta e a coragem dos trabalhadores, a combatividade das mulheres, o entusiasmo das crianças, mas também as hesitações dos dirigentes, o medo dos colonialistas e a cobardia das forças policiais a seu mando, a complexidade das relações humanas, familiares, de vizinhança.

A ampla solidariedade com o movimento grevista, que se verificou e foi fundamental para o êxito do movimento em 1947-1948, é igualmente um dos elementos impressionantes deste romance. Por isso, não se estranham as actuais (e actuantes) palavras de Ibrahima Bakayoko, de alguma forma personagem principal entre todas as personagens: «E agora pedreiros, marceneiros, torneiros, pescadores, estivadores, funcionários, agentes da polícia, milicianos, empregados do sector público e do sector privado, compreendei que esta greve é também a vossa [...]. Temos no nosso caminho uma rocha que nos impede de avançar. Todos juntos podemos removê-la.»



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