Acabar com os benefícios aos poderosos
É no escandaloso volume de lucros dos grupos económicos e no seu favorecimento fiscal que se encontram razões para a grave crise do País, afirmou Vasco Cardoso, da Comissão Política, em conferência de imprensa realizada no dia 20.
Os grupos económicos têm que pagar 25 por cento de IRC
Como adiantou o dirigente do PCP, a profunda crise com que o País está confrontado é «inseparável de uma política de absoluto favorecimento dos interesses dos grupos económicos e do capital financeiro». Estes, beneficiando de privatizações, da transferência de enormes recursos públicos, de favorecimento fiscal, de processos e negócios opacos e de uma crescente exploração da força de trabalho, «continuam a acumular lucros que são um insulto para quem vive do seu salário ou pequenos rendimentos».
Vasco Cardoso acrescentou que nestes últimos meses, marcados pela entrada em vigor do PEC e das medidas adicionais, os lucros dos grandes grupos económicos aumentaram, sem que PS, PSD e CDS-PP tenham tido qualquer palavra acerca do assunto, atitude própria de quem está «comprometido com os grandes interesses».
Os números dos favorecimentos aos grandes grupos económicos, «apesar de muitas vezes ocultados e silenciados pelo poder dominante, são demolidores»: só desde 2005, os 17 principais grupos económicos acumularam 31 623 milhões de euros de lucros. A taxa efectiva de IRC foi de 19,4 por cento. Inclui-se aqui os cinco principais bancos, energia e telecomunicações (com EDP, REN, GALP, PT e ZON), construção civil e auto-estradas (com Mota Engil, Soares da Costa e Brisa) e a grande distribuição (Sonae e Jerónimo Martins).
Portugal é «paraíso fiscal»
Para Vasco Cardoso, este favorecimento fiscal assume uma proporção ainda maior no sector financeiro: no primeiro semestre deste ano, a banca pagou uma taxa efectiva de IRC de 10 por cento, sendo que só o BPI, o BES e o BCP viram os seus lucros crescer face ao semestre homólogo respectivamente 11,8, 14,6 e 10,6 por cento. «E é a própria Associação Portuguesa de Bancos a admitir a possibilidade dos lucros referentes ao ano de 2009 - mais de 5 milhões de euros por dia - virem a ter uma tributação efectiva de 4,3 por cento, confirmando o escandaloso paraíso fiscal propiciado ao sector financeiro em Portugal.» Se sobre estes grupos económicos tivesse recaído uma taxa efectiva de IRS de 25 por cento sobre os seus lucros, o Estado «teria arrecado mais 2 429 milhões de euros em receita fiscal».
Da mesma forma que se sobre o conjunto de operações financeiras (principalmente das que resultam da especulação e acumulação de mais-valias bolsistas) «recaíssem cobranças fiscais de acordo com a defesa dos interesses do País, seguramente que muitos milhões de euros que são necessários aos serviços de saúde, de educação, ou à melhoria das condições de vida das populações não estavam a ser hoje cortados».
A venda da participação da PT na Vivo à Telefónica foi uma vergonha, acrescentou Vasco Cardoso, referindo-se aos mais de 6 mil milhões de euros de mais-valias bolsistas que a venda proporcionou, e que foram «drenados por um paraíso fiscal na Holanda, para chegarem a Portugal sem pagarem impostos, e tudo isto com a conivência do Governo PS».
Reapresentar propostas
Vasco Cardoso anunciou que o PCP voltará a apresentar, nos próximos meses, propostas rompam com a actual política de favorecimento do grande capital, nomeadamente em sede de discussão do Orçamento do Estado. O PCP pretende, nomeadamente: impor a obrigatoriedade para todos os grupos económicos do pagamento de uma taxa efectiva de IRC de 25 por cento; impor, no imediato, a tributação das mais-valias realizadas na bolsa, incluindo as operações das chamadas SGPS, bem como dos privilégios dos gestores de grandes empresas; concretizar medidas fiscais que permitam no imediato arrecadar três vezes mais do que o aumento do IRS e dos preços por via do aumento do IVA decretados pelo Governo, designadamente pela criação de um novo imposto, que taxe em 0,1 por cento todas as operações bolsistas e em 20 por cento as transferências financeiras para os paraísos fiscais e uma tributação extraordinária dos patrimónios mais elevados; impondo a todas as empresas que tenham a participação do Estado, directamente ou através da CGD e da Parpública, o impedimento de posse de quaisquer empresas subsidiárias ou sucursais que estejam sediadas em qualquer paraíso fiscal.