Os «Legionários de Cristo» e a velha conspiração

Jorge Messias

Nesta coluna, no anterior número do Avante!, começámos a referir uma organização católica menos conhecida cuja acção decorre, normalmente, nos terrenos religiosos e laicos do ensino, da acção social e do combate à pobreza. No universo eclesiástico, é ferozmente conservadora, tal como se fosse uma extensão do Opus Dei e da Igreja conspirativa ou da Companhia de Jesus. Porque os «legionários» sobrepõem a tudo o mais a intransigência do dogma e a obediência incondicional à hierarquia e aos seus superiores. Cultivam a imagem de um certo diálogo aparente com o exterior. No entanto, tal como gosta de afirmar o seu director-geral, o aristocrático sacerdote mexicano P. Corcuera: «Somos como os futebolistas: se fizeres concessões e facilitares, perdes!». Por isso não cedem, só aparentam ceder.

Os «legionários» representam a ponta visível de uma montanha submersa que abriga, por um lado, centros vitais do Ensino, da «sociedade civil», das ONGS sociocaritativas, de lobbies da comunicação social, de centrais filantrópicas e vanguardistas no combate à pobreza, etc., etc.; por outro lado, o seu historial radica nas suas relações preferenciais com os regimes fascistas, com a banca subterrânea ou com o tenebroso mundo do crime e do narcotráfico (como está documentado), com fortes laços que identificam interesses financeiros da Igreja e as mais-valias dos grandes investidores anónimos. Abreviando dados conhecidos, recorde-se a ascensão fulminante dos LM a partir da subida ao poder, em Espanha, de José Maria Aznar e do PP – Partido Popular, numa linha de tradição que continua a ser mantida: «Nos anos 60, o comunismo adensava-se na Europa. Na Igreja, com João Paulo II, enraizou-se a tese de que à Igreja católica pertence, como direito natural, o papel de grande decisor político. A Igreja derrotou o marxismo. A Igreja fez opção preferencial pelos pobres. A Igreja substituiu-se ao Estado na redistribuição social da riqueza e na nova definição das redes públicas e privadas da acção social. Venha a nós o Poder». Uma síntese que se «apanha» nas entrelinhas de muitos documentos do Vaticano.

Na Igreja mais ortodoxa, a fé é um simples ponto de partida. O «caminho» apontado vem depois e é implacavelmente o da obediência absoluta aos superiores e a completa lealdade e fidelidade aos princípios da Instituição, como é o caso da Ordem da Legião de Cristo. Se as regras forem «religiosamente» cumpridas, o legionário virá a descobrir que a obediência total que o torna tão feliz implica que ele abdique de qualquer liberdade de decisão pessoal: o legionário deve à Legião e à Igreja fidelidade, obediência e lealdade absolutas. A verdadeira abnegação não se traduz simplesmente no jejum e na acomodação da consciência social mas na forma como o legionário for capaz de negar as suas próprias capacidades de análise, síntese e crítica pessoais. «Sobre tudo isso prevalece a Legião».

Confundir para «Fazer o Bem»...

Em Portugal, esta congregação mista – eclesiástica e laical – tem uma forte representação liderada pela «Legião de Maria», uma «cabeça de cartaz» menos falada mas poderosa, com cerca de 37 000 associados organizados em células e empenhados em visitas domiciliárias a desconhecidos que as hierarquias previamente designam. Este tipo de organização não é nada estranho a dezenas de outras estruturas católicas. A LM, aliás, não é uma cabeça de hidra mas uma hidra com várias cabeças. E não pode deixar de acentuar-se que o facto de a instituição se organizar em células activas não é prática, no mundo católico, exclusiva da LM. O que é pelo menos bizarro é que o «Anuário Católico» se preste a informar que as «células legionárias» são altamente especializadas e «privilegiam a Dimensão Pastoral e a Dimensão Social, tocando assim nas suas actividades todas as Pastorais». Cada célula orienta-se para determinado sector e para os contactos com desconhecidos alheios ao mundo católico, através de pequenas formações que levam e trazem informação e instalam influências, tal como acontece com os Grupos de Patrícios (formação religiosa de leigos), as Incolae Maria (vinculadas ao trabalho autárquico), etc. Os LM trabalham a nível local sob orientação dos párocos. A outros níveis, subordinam-se à pirâmide da autoridade eclesiástica. As novas tecnologias da comunicação permitem que a enorme massa de dados assim acumulada num só país se junte àquela que outras redes católicas internacionais similares vão recolhendo, transformando o produto final num poderoso poder político e económico mundial da Igreja. Uma Igreja que, paradoxalmente, se contradiz a si própria, cada vez mais dependente dos mercados e da lucro material, enquanto mergulha nos delírios da sua vocação divina.

Vivemos um momento histórico povoado por perigos e por potenciais pavores.

Mas quanto a nós, comunistas, entendemos que a nossa força é em nós que está. No Homem e no Trabalhador. Na unidade proletária. Num amanhã melhor mas construído a pulso. Lá porque nos acenam com papões, não nos deixaremos enganar. Não nos vergaremos.

Voltaremos a esta importante peça jornalística de El País. É fonte quase que inesgotável de indicações úteis que simplificam a leitura do presente e nos advertem quanto ao futuro.



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