Pequim, outra vez
Para a Fan Shan, a Maria João e o Toi, que me cuidaram e apaparicaram – Pequim
Ali estava eu, sentado junto a uma ampla janela dum restaurante da zona das embaixadas. Não me sentia como o José Régio quando escrevia «…em Portalegre dizia/ cidade onde então vivia/ coisas que terei pudor/ de contar seja a quem for…», mas um sentimento estranho de solidão e lonjura tinha tomado conta de mim. Sozinho pensava que cada vez que voltava à China havia coisas novas e diferentes. Desta vez notei a existência de muitos novos restaurantes e supermercados, que até tinham queijos de vários países, quando os chineses são totalmente alérgicos ao queijo e aos lácteos. Na televisão e nos jornais chineses em inglês falava-se diariamente das greves dos trabalhadores de várias fábricas de automóveis japonesas, de fábricas gigantescas de componentes electrónicos, propriedade de Taiwan. Mais de 100 000 trabalhadores em greve, durante várias semanas, que finalmente conseguiram aumentos de cerca de 30% e outras melhorias nas condições de trabalho. Apareciam na televisão estatal, quer no canal em inglês, quer nos canais em chinês. O governo e o seu primeiro-ministro saíam a defender os trabalhadores. Os sindicatos clássicos eram questionados e discutia-se como deviam ser «num país que quer construir o socialismo utilizando a economia de mercado». Tudo isto sem polícia, utilizando a tranquila linguagem típica dos chineses.
Sozinho, sem pressa, via os clientes entrar, todos vestidos pelo padrão-tipo «funcionário de embaixada». Via aquela gente em mesas de 2, 4, 7 ou 8 pessoas, todas a falar inglês e, logo me vem a cabeça uma dúvida muito velha: qual será o tipo da CIA e qual será o tipo da MOSSAD? Agora com a crise admiti que, como os EUA e Israel são tão amigos, se calhar têm o mesmo espia para os dois. É preciso diminuir o gasto público, não é como eles dizem todos?
Um empregado aproximou-se e deu-me um pequeno menu, onde se podia escolher uma de três entradas e um de três pratos principais. Percebi que estava num restaurante de comida francesa. Também davam um refrigerante ou um copo de vinho argentino, além de café e uns bolinhos. Preço, cerca de 12 euros. Não há gorjetas na China.
Voltei a examinar as mesas quase todas cheias de diplomáticos e a pensar que aquela gente que ganha muito, muito bem, vinha àquele restaurante pelo preço da gorjeta que teriam que deixar nos seus países.
Eu pedi umas favinhas descascadas de todas as peles, levemente salteadas em azeite com um toque de tomilho fresco. Lindo e muito bom. Depois um peixe branco de carne firme, sem espinhas, que não consegui identificar, sobre uma cama de um risotto feito com alguns vegetais minúsculos e um pouco de vinho tinto, além da consabida manteiga. Reconfortante peixe a quem nem o risotto incomodava. Fui bebericando o branco argentino que era bastante bebível, sem defeitos e com as qualidades justas para estar ali.
Enquanto comia reparei que a música era interessante e reconhecida por mim. Primeiro foi Brassens, depois uma «morna» de Cabo Verde, Aznavour – de quem nunca fui admirador, menos naquele dia –, o « Dans le Port d’Amsterdam» do enorme Jacques Brel. Chegados aqui disse para mim em voz alta «se põem o Serge Regianni desato a chorar e vai ser complicado de explicar. Não puseram. Não chorei e vi os diplomáticos sairem desfilando como uma resma de fotocópias da mesma página.
Fiquei a ver as pessoas passarem na rua, cada vez mais bem vestidas e mais à «moda». Via-se que havia mais dinheiro e que toda a gente trabalhava. Era uma imagem muito diferente da que tive há doze anos quando estive na China pela primeira vez. Fiquei contente por eles. Não ouvi nunca a palavra «crise».
Quando já era o último, saí reconfortado pela comida que me tinham dado por doze euros. Não consegui descobrir a razão do meu desconforto emocional do início do dia. E também não consegui descobrir quem seria o espia.