• Francisco Silva

O saber ocupa lugar?
Já por várias vezes tenho aflorado o assunto (de forma indirecta, é certo): Qual o grau de conhecimento que os gestores e os responsáveis das autoridades deverão possuir acerca das matérias que constituem a essência tratada pelas organizações que dirigem? Por exemplo, o gestor de um hospital deverá ser sempre um médico? Ou, no noutro extremo, um médico nunca deverá ser um gestor de um hospital caso não seja um gestor profissional (supondo que sabemos que tipo de «animal» é um gestor profissional)? Ainda: será absurdo um médico ser o gestor de uma operadora de telecomunicações? Etc, etc. Como todos os assuntos que devem ser prezados, este deve ser visto, olhado, observado de diversos ângulos, a diversos propósitos, em diferentes alturas (épocas?). Mais, trata-se de um assunto que, para além de, devido à sua complexidade, preocupar muitas pessoas, evoca noutras pessoas respostas cheias de certezas - do famoso género «raramente tenho dúvidas e quase nunca me engano», próprio dos professores que só falam de cátedra. Neste último caso, por um lado estão os que dizem que a gerir uma empresa fornecedora de energia eléctrica só é admissível ter um engenheiro electrotécnico, ou que à frente de um regulador do sector de comunicações electrónicas só deverá ser colocado um engenheiro de telecomunicações; no lado contrário estão os que afirmam que um especialista nunca deverá ser o gestor de uma empresa ou o responsável de uma autoridade estatal, pois ao especialista faltaria a visão ampla dos seus impactos no mercado, ou os efeitos sociais, pois o especialista não entende de como pôr uma empresa a lucrar, ou não sabe, nem mínima quanto mais convenientemente, lidar com o nível das questões jurídicas.
Mas - pegando nestas últimas observações - será que a única coisa que não faz falta a um responsável ou a um gestor é o conhecimento específico das matérias por que a «sua» organização é responsável - que é, afinal, uma situação muito corrente, para não dizermos a mais frequente, e não apenas no que respeita às organizações de grande porte - chamemos-lhes assim? Será que o saber sobre as coisas, o saber especializado, o saber fazer, ocupa mesmo lugar, fisicamente, ao contrário do que dizia a voz do Povo que dizia que o saber não ocupa lugar, e ocupa lugar, de tal maneira lugar, que acaba por ser mesmo um empecilho para os que estão destinados a ser dirigentes?
Este tema veio-me outra vez à ideia a propósito de respostas dadas à Comunicação Social pelo Presidente da Autoridade da Concorrência, Professor Abel Mateus (AB) quando da decisão desta Autoridade de não oposição à OPA da Sonae à PT. Como já me tinha vindo há uma dezena de anos à ideia a propósito da confusão feita pelo guru e bestseller mundial, Professor do MIT, Presidente do seu MediaLab - este escreveu que bit (unidade de informação) era o mesmo que baud (rapidez de modulação)! Adiante.
Procurando fazer pedagogia, AB explicou ao público que a separação das redes «fixas» de «cobre» (a telefónica tradicional) e de «cabo» (a da televisão por cabo) para operadores diferentes ia melhorar o panorama de concorrência. Procurando ser clarinho, achando que se colocava ao nível da generalidade dos cidadãos-ouvintes, disse mais ou menos: «nas vossas casas têm dois fios, um para o telefone, outro para a televisão(…)». Um fio para o telefone não, é um par de fios; e o cabo coaxial da TV também consta de dois condutores. Além disso, é claro que não falava para toda a gente, uma vez que muitos lares não dispõem de TV cabo.
Talvez AB não necessite de dispor de conhecimentos básicos de comunicações para tratar de assuntos relativos à concorrência. Contudo, não deveria ter entrado em pormenores «complicados». Agora, o que parece é que de concorrência deveria saber. E por isso só referiu os progressos que poderão ser registados na área «fixa», deixando cair disfarçadamente a questão do «telemóvel» que, em resultado OPA levará à concentração da TMN com a OPTIMUS, para quase 70 por cento do mercado. Olvidando junto do público esta questão, estava a cometer um erro de Comunicação. Não se terá lembrado que as grandes despesas dos consumidores são no telemóvel e não no fixo, para além de que os consumidores que só utilizam «fixo» normalmente pertencem a camadas de proventos baixos, e idosos, os quais frequentemente não têm em casa o tal «fio» da TV por cabo (que afinal são dois fios num cabo)! Ou será que ele estava só a pensar nos menos de 15 por cento que têm acesso de banda larga, e, neste caso, a expressar uma política apenas para uma minoria?


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