Uma sondagem búlgara

Correia da Fonseca
Foi pela Euronews que tive notícia de uma sondagem de opinião feita na Bulgária acerca da sua entrada na União Europeia. Não quer isto dizer que, em rigor, não tivesse sido possível saber dela, da sondagem, graças a uma das três operadoras portuguesas de televisão: seria talvez questão de estar muito atento aos diversos serviços noticiosos, de suportar com paciência e grande poder de encaixe abundantes notícias de desgraças, brutalidades e acontecimentos congéneres. Mas não, foi a Euronews que falou do caso, não por ser um canal informativo exemplar e rigorosamente isento mas sim por ser suficientemente diferente e melhor que os teleserviços de notícias portugueses considerados na sua generalidade e com ressalva para as excepções, que as há. E o que de mais importante a Euronews então contou foi, em substância e encurtando razões, que os búlgaros estão muito moderadamente optimistas perante a adesão. Mais: que uma boa parte deles acha que o alargamento da União Europeia é uma boa coisa para a União, o que significará talvez que o é para os Estados que dominam a UE, mas que quanto aos búlgaros será porventura caso para saber mais tarde. Esta prudência búlgara perante um abrir-de-portas que, a avaliar pelas notícias que sempre nos chegam, é acolhido com alvoroçada alegria por muitas populações que perante ele julgam chegado enfim o momento de penetrarem no paraíso do desenvolvimento e da modernidade pode surpreender. Talvez, quem sabe?, na Bulgária haja muita gente a entender que quanto a «desenvolvimento» e a «modernidade» é preciso descascar estas palavras e ver o que têm dentro. Por outro lado, calculo que a maioria dos portugueses imagine que a Bulgária era, até à derrota do bloco socialista de Leste, um país miserável onde uma população andrajosa se arrastava pelas ruas a praticar mendicidade e a orar secretamente pelo regresso do capitalismo; mas diz quem sabe porque muito bem conheceu então o país que não acontecia então nada disso, pelo contrário, sendo mesmo inadequado e excessivo considerar como pobre a Bulgária de então. Quanto às vantagens decorrentes da entrada na União, elas são altamente prováveis para as empresas ocidentais que lá poderão colocar produtos seus ou abrir centros de produção, mas para os próprios búlgaros e segundo a sua própria avaliação as vantagens serão mais duvidosas.

Uma precaução elementar

Não quero, por razões várias entre as quais é decisiva a incapacidade para o fazer, botar sentença sobre as consequências económicas que a adesão terá para a Bulgária, como aliás para qualquer outro país do Leste, mas sustento que também em casos como este, e aliás numa enorme mão-cheia de outros, é de fundamental prudência ter presente que nem sempre quem fala em País está a querer referir-se ao povo que o habita e não apenas ao limitado segmento da população que conseguiu apoderar-se das alavancas do poder económico. Ter sempre presente esta precaução elementar e contudo quase sempre esquecida ou ignorada pelos cidadãos desprevenidos é fundamental para um correcto entendimento do fluxo informativo que os media nos fornecem, e lembrá-la cabe sem dúvida numa preocupação didáctica que tenha por objectivo evitar que o consumo dos media, e naturalmente da TV com reforçadas razões, resulte num logro. Neste quadro, parece mais justificado, imperativo, que o comentário ao que na TV se vê e ouve inclua essa preocupação, e se esse cuidado não ocorre mais vezes será porque a crítica se passeia por outros planos de abordagem não apenas mais altos, ou assim supostos, mas também e sobretudo menos expostos a operações de lapidação ou atabafamento. Deixemos isso, porém, e passemos a questões mais concretas e práticas. Uma delas é a necessidade de entender exactamente o significado e as consequências dos mais recentes alargamentos da União Europeia, e dela tal como de facto é não como poderia e deveria ser. Quanto a isso, a realidade portuguesa e a televisão fornecem-nos dados e testemunhos eloquentes quando se sabe do quase quotidiano encerramento de empresas em processo de emigração para o Leste, e não decerto com o propósito filantrópico de correr em socorro de populações arruinadas pela derrotada experiência socialista, mas antes para aproveitar a qualificação técnica com que a mesmíssima experiência dotou aí os trabalhadores. Quanto à sondagem cujos resultados soubemos pela Euronews e ao parcial cepticismo que eles reflectem, talvez correspondam a um mais lúcido e informado entendimento do que é a União e das forças que a dominam. Pelo menos parece ser assim. E talvez seja. Afinal de contas, o socialismo andou por lá.


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