Caminhos do poder e da fortuna

Jorge Messias
Os governantes portugueses (os que estão ou não estão no governo mas são homens poderosos) tomam a Espanha como referência permanente. Falam com admiração no modelo espanhol, no desenvolvimento espanhol, no milagre da reconciliação espanhola, na poderosa banca espanhola... e assim por diante. A Espanha instalou no seu território, ainda com Franco e após a sua morte, um sistema político-religioso capaz de ser exportado e que urge copiar. É este o entendimento que comanda, agora, a acção governativa em Portugal. Há ministros que defendem abertamente a união ibérica. Outros, conscientes da complexidade da operação, entendem que os caminhos ibéricos do poder e da fortuna se talham gradualmente, caminhando, como diria o bem-aventurado padre Escrivá de Balaguer, arquitecto espanhol do poderoso Opus Dei.
Na área das chefias, ambos os países têm agora Presidentes com perspectivas e obediências coincidentes. As suas linhas políticas são ditadas, democraticamente, por Cortes ou Parlamentos livremente eleitos. Tanto em Portugal como em Espanha, a força executiva foi confiada pela via do voto popular, a governos socialistas com práticas anti-socialistas comuns. As hierarquias católicas caminham de mãos dadas. Imperam as sociedades civis.
Neste panorama idílico Portugal já pouco mais é que uma região de Espanha. A opinião de que se trata de dois Estados distintos é cada vez mais polémica. Desdobram-se as forças invasoras. A banca constitui a guarda avançada do exército castelhano que ergue bem alto a cruz e o pendão. Do Milénio ao BPI, do BES ao BPP, todos os bancos a que chamam portugueses têm fortíssimas componentes espanholas. Nem seria necessário referir os impérios bancários espanhóis instalados em Portugal: o Santander, o Popular, o BBVA; os tenebrosos off shores; ou as Cajas de Aorro (Caixas de Aforro) que actuam no mercado caritativo e dominam, por si sós, cerca de 50% da massa financeira de Espanha.

Os multimilionários

Os novos-ricos que a globalização da economia criou, espanejam-se agora à vista de todos, sem o mínimo pudor. As misericórdias financiam as corridas de automóveis, as ONGS descobrem a mina do turismo, os magnatas místico-filantrópicos compram ao governo, por atacado, áreas vitais como as da Educação, da Saúde ou da Segurança Social. Em Portugal (não será o mesmo em Espanha?) tudo se transacciona em hasta pública. Os órgãos do poder são simples figurantes. Compram e vendem patrimónios, ajustam preços, recolhem lucros e retiram-se da cena. Os casos escandalosos são constantes.
Por exemplo, estão agora em curso dois processos aparentemente distintos mas que na realidade são apenas um: o da fusão da RDP e da RTP, na área das telecomunicações públicas; e, no sector financeiro privado, a aquisição da Média Capital por parte dos espanhóis da Prisa.
No primeiro caso (o da fusão da TV do Estado e da Radiodifusão Pública ), o governo de Sócrates procura assumir poderes ditatoriais e passa a ser ele a decidir da nomeação ou demissão dos membros da futura administração única. No segundo caso (a compra pela Prisa da Media Capital, detentora de uma importante rede mediática, com destaque para a TVI), a gigantesca operação financeira que implica é desempenhada por conhecidos protagonistas : a Prisa, a Média Capital, a Radiotelevisão do Luxemburgo, a Vertix, a Bavária, as principais investidoras norte-americanas da Hicks, Tate, Muse & Furst, os impérios de Santo Domingo e de Berggruen, etc. Para se dar uma pálida ideia da importância que esta operação de compra e venda terá na formação da opinião pública portuguesa, bastará dizer-se que o grupo Media Capital controla 7 conhecidas estações de rádio, a TVI e vários canais da Tvcabo, 10 títulos com grande circulação da imprensa escrita , 7 sites da Internet, as listas telefónicas, discográficas, empresas de publicidade, etc. Em tudo isto, o que deve exigir a nossa atenção é o facto de todos os grupos referenciados no negócio (incluindo o grupo comprador) serem considerados, desde há muito tempo, como parte integrante dos lobbies financeiros da Igreja Católica e do Opus Dei. Não é de um simples acto de compra e venda que se trata mas da fusão, a nível ibérico, de dois verdadeiros impérios económicos. Para referir apenas os americanos da HTM & Furst, detêm mais de 1500 estações de rádio e 37 TV regionais. Têm exclusivos de publicidade em 2700 supermercados Carrefour.
O carácter complementar das duas operações torna-se, assim, transparente. Vamos encontrar o mesmo método governamental – recuo/ venda/entrega – noutras áreas diferentes onde os ministros de Sócrates traficam o Portugal democrático. Ali, como aqui, é preciso resistir!


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