Todos os povos têm o direito a defender a sua pátria
«A situação na Cisjordânia é muito grave. A situação ali pode explodir, pode deflagrar uma guerra ou uma terceira Intifada. Porque há sempre um limite para aguentar. E o povo palestiniano já não aguenta mais». O alerta é de Husam Daoud, da Frente Democrática de Libertação da Palestina (FDLP), em entrevista ao Avante!.
“Este é um povo que tem de existir”
Como se caracteriza, neste momento, a situação na Palestina?
Foi estabelecido com a intermediação dos Estados Unidos da América (EUA) um cessar-fogo na Faixa de Gaza, entre as forças ocupantes e a resistência palestiniana. Mas só em teoria há cessar-fogo, já que Israel continua a atacar a população, matando em cada dia que passa crianças, mulheres, civis, numa violação permanente do cessar-fogo. Desde que se chegou a um acordo para parar a guerra, Israel não parou em nenhum momento as suas acções na Faixa de Gaza. E, agora, na Cisjordânia, passa-se uma coisa terrível. Os colonos israelitas estão a atacar diariamente a população palestiniana, nos povoados, nas cidades, queimam os nossos carros, arrancam e destroem as nossas oliveiras, que são um símbolo para os palestinianos. Pilham tudo o que podem, queimam os nossos haveres, incluindo habitações, roubam o gado aos camponeses palestinianos…
Com que objectivo?
O exército israelita está com eles. Se um palestiniano se dispõe a defender a sua casa porque a querem incendiar, ou quer defender o seu gado do roubo dos colonos, o exército israelita intromete-se em defesa dos colonos. Os colonos vêm armados, atacam os palestinianos à vista do exército israelita. A situação na Cisjordânia é muito grave. A situação ali pode explodir, na Cisjordânia pode começar uma guerra ou uma terceira Intifada. Porque há sempre um limite para aguentar. O povo palestiniano já não aguenta mais. Os colonos, apoiados pelo exército, atacam os palestinianos para roubar os seus pertences, as suas casas. Atacam-te para tornar a tua vida impossível, para que tu abandones a tua casa e o teu país e te vás embora. O plano dos colonos, que são apoiados por Ben-Gvir e Smotrich [ministros israelitas, de extrema-direita], tem por objectivo forçar a saída dos palestinianos da Palestina e ocuparem, eles, os colonos, toda a Palestina.
Há alguma possibilidade desse plano se concretizar?
É muito difícil que consigam pôr em prática um plano desses. Agora, pessoalmente, tenho esperanças nas eleições, dentro de dois meses, em Israel e nos EUA também. Porque estou convencido de que em Israel o actual governo racista e odioso vai perder as eleições e vai chegar um governo um pouco menos mau do que o actual. Nos EUA, nas eleições para a Câmara dos Representantes e o Senado, também Donald Trump vai perder, devido à sua política, pela sua agressão, pelas guerras que está a provocar sem motivo. Atacou o Irão porque Netanyahu quer atacar o Irão. Porque a todos os presidentes norte-americanos, desde Reagan até ao actual presidente, Israel pediu que atacassem o Irão e nenhum aceitou isso. Mas Trump está comprometido com Israel e tem de fazer o que os israelitas querem. Cada vez que Trump chega a um acordo com o Irão para dialogar, Netanyahu vai aos EUA e antes de ali chegar já Trump atacou o Irão…
E em relação ao chamado «plano de paz» para a Faixa de Gaza, pode avançar?
Trump é dominado por Israel. Faz o que Israel quer. Israel transmite-lhe informações erróneas, informações para que ele mude de opinião quando se aproxima de um acordo. Não existe qualquer plano de paz para a Faixa de Gaza. O objectivo sempre foi entregar a Faixa de Gaza a Trump e a Cisjordânia a Israel. É o que se pretende agora. Perante o que se está a passar na Cisjordânia, com os abusos dos colonos apoiados pelo exército israelita, Trump não diz nada. Cada dia há mais colonatos ilegais, mais violência, mais roubos de casas na Cisjordânia. Trump criou um Conselho da Paz, presidido por ele, para a Faixa de Gaza. Fala-se nos hotéis que ele prometeu construir ali, mas o que ele pretende é ficar com o gás da Faixa de Gaza. Há muito gás na costa marítima palestiniana e ele quer explorar essa riqueza. Ele quer entregar a Cisjordânia a Israel e ficar com o gás. Assim, é claro que nunca haverá paz na Faixa de Gaza!
Mantém-se a crise humanitária na Faixa de Gaza…
No que diz respeito a produtos de primeira necessidade, o que entra na Faixa de Gaza não chega para todos. Por exemplo, as botijas de gás. Os palestinianos precisam, digamos, de mil botijas, dão-lhes duzentas. É indispensável comida para um milhão de pessoas, os israelitas autorizam a entrada para duzentas mil pessoas. As pessoas estão a passar fome na Faixa de Gaza. Água não há, não há água potável. Vivem no território dois milhões e meio de pessoas e quantos camiões entram diariamente no território? Tudo o que entra não dá nem para uma quarta parte das pessoas que ali vivem. Mas as pessoas já não aguentam mais. Não há trabalho, não há dinheiro. Para agravar a situação, o governo israelita destruiu todos os escritórios e outras instalações da UNRWA [Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente] no território. Já não existe UNRWA na Faixa de Gaza. Perante o silêncio dos EUA… E a União Europeia tão-pouco fez alguma coisa. A União Europeia cumpre ordens dos EUA. Não faz nada em relação à situação da Palestina.
Apelo a todos os países europeus, a todos os governos da Europa, especialmente ao governo português, para que não fiquem indiferentes e tentem pôr fim a estes massacres. Por favor, dêem a estas pessoas o direito de viver, este é um povo que tem de existir! Todos os povos têm o direito a defender a sua pátria.




