Não há solução sem autodeterminação

Abdeslam Aomar Lahsen, presidente da Associação de Familiares de Presos e Desaparecidos Sarauís (AFAPREDESA), denuncia a repressão marroquina nos territórios sarauís ilegalmente ocupados e agradece a solidariedade com a legítima luta do seu povo.

Drones marroquinos já mataram 198 sarauís nos territórios sarauís libertados

Como caracteriza a actual situação do conflito com Marrocos?

A situação é de extrema gravidade, já que Marrocos se sente sustentado pelo apoio público de EUA e Israel às pretensões marroquinas sobre o Sara Ocidental. Isto traduz-se no agravamento da repressão e na acentuação do bloqueio – mediático e não só – sobre os territórios ocupados. Desde 1996 que a Cruz Vermelha não visita os presos políticos sarauís e o Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações 2016 não voltou aos territórios ocupados desde 2016. Mas houve também desenvolvimentos positivos, como as sentenças do Tribunal Europeu de Justiça, de 2024, que consideram nulos os acordos entre a União Europeia e Marrocos por não respeitarem o direito à autodeterminação do povo sarauí nem terem o consentimento da sua representante legítima, a Frente Polisário. O tribunal também concluiu que houve uma deportação massiva do povo sarauí, que é parte de um genocídio, realidade também reconhecida por tribunais espanhóis.

O conflito tem-se agravado nos últimos anos…

Marrocos está a utilizar novas tecnologias militares e de vigilância contra os sarauís, como o Pegasus (israelita) e os drones, que já mataram 198 pessoas nos territórios libertados. Há nestes territórios uma população que vive da pastorícia e que foi obrigada a refugiar-se nos acampamentos ou na Mauritânia. É, actualmente, uma zona muito perigosa. A isto acresce a ocultação por Marrocos do paradeiro de 440 desaparecidos e a situação gravíssima dos presos políticos sarauís.

Em 2025, o chamado “Plano de Autonomia” proposto por Marrocos para o Sara Ocidental foi admitido por alguns como base para um processo negocial. Que avaliação faz desta tentativa?

As políticas dos EUA tentam impor o que o povo sarauí e a Frente Polisário não aceitam, nem podem aceitar, porque não levam em conta a sua vontade. O dito “Plano de Autonomia” está em contradição com todas as resoluções anteriores das Nações Unidas, que assentam no direito à autodeterminação e na inexistência de relações de soberania de Marrocos sobre o Sara Ocidental. Foi proposto um referendo [consagrado em resoluções das Nações Unidas], que esteve marcado para 1991, no qual defendemos que participem apenas os autóctones e não os colonos. Nunca se realizou.

Quais as prioridades da Frente Polisário?

A primeira é manter a mobilização face aos riscos que enfrentamos: não ceder, em circunstância alguma, porque as únicas batalhas perdidas são aquelas que se abandonam. E ter confiança na nossa juventude, cada vez mais capaz e com mais recursos para enfrentar os desafios que temos pela frente.

Penso que é tempo também de manifestarmos a nossa gratidão pelo apoio que sempre recebemos dos nossos camaradas do PCP e das forças progressistas aqui em Portugal. E também agradecer aos que se mantêm firmes, independentemente de terem ou não recursos. Cuba é o exemplo perfeito de solidariedade e alcançou nestes dias um feito extraordinário: o regresso às aulas de um milhão e 700 mil estudantes. O que poucos sabem é que um grupo de jovens sarauís está a viajar para Cuba para estudar. Mesmo com as dificuldades actuais, nunca nos disseram “não”.

 



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