Pão para 20 dias
«Se um bloqueio nos portos nacionais ou nos principais corredores marítimos de importação interrompessem a chegada de trigo a Portugal, o país poderia ficar sem matéria-prima para produzir pão, massas e outros bens alimentares em apenas duas a três semanas» – quem o diz é o Expresso, com base nas declarações de associações de produtores e de transformação industrial de cereais.
A dependência resulta de uma dramática diminuição da produção nacional nas últimas décadas. Nos últimos 20 anos, a área de cereais diminuiu 77%. O país só produz entre 17 a 19% dos cereais que consome, destacando-se pela negativa o trigo, em que a autonomia ronda os 6% e as reservas dão para poucas semanas. A peça refere outro elemento revelador: «antes da adesão à então CEE, Portugal produzia cerca de 40% das suas necessidades de trigo», mas a competição desleal esmagou a produção nacional.
A notícia apresenta «as alterações climáticas, guerras e crises geopolíticas» como as maiores ameaças à produção e comércio global de cereais. Podemos além dessas pensar noutras, que podem até ser mais prosaicas e ter impactos nas importações, como assistimos durante a pandemia de covid-19. Esta ideia de que o que se come todos os dias tem de vir em transportes caríssimos do outro lado do planeta é uma irracionalidade que se paga caro - literalmente, mas não só.
Há questões que se impõem: como chegámos a este ponto? Que decisões foram sendo tomadas e quem assume as responsabilidades? Que riscos corre o País perante esta insegurança brutal sobre o que é mais básico à vida – a alimentação? Que medidas se vão tomar para produzir mais e constituir reservas dignas desse nome? Tanto milhão gasto para defender a “nossa” segurança com armas e drones, e não há dinheiro para defender a segurança e a soberania alimentares?




