Gaza silenciosa
Numa entrevista recente, o Presidente da República de Cuba, Miguel Diaz-Canel, referiu-se à situação que se vive no seu país, sujeito a uma brutal guerra económica por parte dos EUA, como a de uma “Gaza silenciosa”. Sem bombas (pelo menos para já), mas com a mesma intenção genocida contra todo um povo insubmisso, à semelhança do palestiniano, não poupando ninguém – nem crianças, nem grávidas, nem doentes, nem idosos.
Que o bloqueio mata – e mata sobretudo os mais frágeis – provam-no os próprios números: habituada por mérito próprio a figurar nos primeiros lugares mundiais ao nível da mortalidade infantil (situada durante anos entre as 4 e as 5 mortes por mil nascidos vivos), a revolução cubana vê hoje esses valores duplicarem fruto dos apagões constantes, que afectam também as maternidades e hospitais, e das carências de medicamentos, vacinas, seringas e outros equipamentos, cada mais difíceis – e caros – de adquirir nos mercados internacionais devido à apertada teia de medidas coercivas imposta pelos EUA. A isto acrescem os 117 mil doentes oncológicos, 1200 dos quais menores, actualmente privados de tratamento pelas mesmíssimas razões.
Apesar de tudo isto, os médicos cubanos continuam todos os dias a salvar vidas, mesmo que à luz das lanternas dos telemóveis, e Cuba continua a formar profissionais de Saúde, muitos dos quais estrangeiros (dezenas são palestinianos), e a criar tratamentos inovadores e eficazes para vários tipos de cancro – dos quais muita gente não beneficiará fora do país pelas restrições impostas pelo bloqueio.
Em vários portos de países vizinhos estão 7000 contentores com alimentos destinados a Cuba – e que não chegam lá devido às ameaças dos EUA sobre as empresas transportadoras. Na própria Ilha da Liberdade há toneladas de alimentos e medicamentos armazenados à espera de combustível para poderem chegar às pessoas. Os apagões afectam a produção alimentar, a distribuição de água potável, o sector dos transportes e todos os aspectos da vida quotidiana, até os aparentemente mais simples: «Conseguiria viver com 20 horas de apagão?», questionou Diaz-Canel na referida entrevista. Dificilmente, respondemos.
Porém, mesmo com todas estas limitações, um milhão e meio de crianças e jovens cubanos começaram no dia 1 mais um ano lectivo.
Não, Cuba não é um “Estado falhado” nem o socialismo é responsável pelas graves carências que afectam os cubanos. Digam o que disserem os criminosos de Washington e calem o que calarem os “nossos” média domesticados, a verdade é só uma: o objectivo do bloqueio é submeter Cuba e o seu povo, acabando com um exemplo particularmente duradouro de independência, dignidade e justiça social, ali mesmo às portas da maior potência imperialista do mundo. É que os exemplos são isso mesmo e este sempre teve o dom de contagiar outros a segui-lo…




