PEV defende que ferrovia não pode ser um luxo
O Partido Ecologista «Os Verdes» (PEV) critica a «total inversão de prioridades» do Governo PSD/CDS na política ferroviária, denunciando o investimento em projectos turísticos enquanto persistem problemas nas linhas e ligações de passageiros.
A ferrovia é um serviço estratégico para o desenvolvimento do País
Em comunicado divulgado a 26 de Agosto, o PEV contesta o anúncio de fundos comunitários para a aquisição de material circulante da CP por empresas privadas, destinado à criação de um comboio-hotel nas linhas do Douro, Beira Alta e Beira Baixa, enquanto persistem carências no transporte ferroviário regular nestas regiões.
Para «Os Verdes», o investimento público deve assegurar o direito à mobilidade das populações, defendendo a reactivação da Linha do Corgo, um ramal que aproxime a estação de Portalegre da cidade e a recuperação da ligação ferroviária a Beja. Reclamam ainda respostas para os problemas nas ligações a Évora, onde apontam situações frequentes de lotação esgotada, atrasos prolongados e automotoras sem condições adequadas de conforto.
O PEV considera igualmente prioritária a nova travessia ferroviária do Tejo, entre Chelas e o Barreiro, por contribuir para reduzir a pressão rodoviária, promover a mobilidade sustentável e reforçar as ligações ferroviárias entre o norte e o sul do País e ao futuro aeroporto.
Relativamente à proposta da Autoridade da Concorrência para antecipar o fim do contrato de serviço público com a CP, actualmente previsto para 2029, com a possibilidade de extensão até 2034, «Os Verdes» rejeitam a privatização da ferrovia e contestam que a abertura do sector a operadores privados garanta preços mais baixos, maior qualidade e diversidade da oferta.
O PEV recorda ainda que a Linha da Beira Baixa se encontra parcialmente suspensa desde o início do ano, na sequência dos danos provocados por temporais, obrigando a transbordos rodoviários e interrompendo a ligação ferroviária contínua no Interior Centro, com particular impacto nas populações de Abrantes e Castelo Branco.
Carneiro «descarrila» na Linha do Leste
A propósito da recente viagem de José Luís Carneiro na Linha do Leste, entre Portalegre e Elvas, «Os Verdes» acusam o Secretário-Geral do PS de «oportunismo político» por ter afirmado que o transporte diário de passageiros nesta linha foi reposto em 2016 por um governo PS.
O PEV considera que, embora a reposição tenha ocorrido sob um governo do PS, a afirmação «foge à verdade», uma vez que o serviço diário só foi reposto a 29 de Agosto de 2017, após «um longo período de luta e de negociação».
«Os Verdes» recordam que o tráfego de passageiros foi encerrado em 1 de Janeiro de 2012 pelo governo PSD/CDS-PP e que, em 2015, iniciaram uma campanha pela reabertura da linha, que incluiu uma marcha com populações e autarcas, nomeadamente da CDU. Nesse ano, a Assembleia da República aprovou por unanimidade um projecto de resolução apresentado pelo Grupo Parlamentar do PEV.
Segundo os ecologistas, a pressão junto do governo minoritário do PS prosseguiu até à reposição, em 29 de Agosto de 2017, de um serviço diário entre o Entroncamento e Elvas. Em 9 de Outubro de 2022 foi criado um segundo horário de ida e volta, ainda considerado «longe de responder às necessidades diárias de mobilidade da população».
«Um facto, só por si, não garante toda a verdade», afirma o PEV, rejeitando que a reposição do serviço possa ser apresentada como resultado exclusivo da iniciativa do PS. O partido sublinha ainda que, durante a maioria absoluta socialista, «havia condições para fazer muito mais pela Linha do Leste», mas «escolheu não fazer».
Para «Os Verdes», a luta prossegue pela melhoria das condições da linha e do serviço, bem como pela construção do Ramal de Portalegre, reivindicação que considera necessária para aproximar a cidade da rede ferroviária nacional.
Privatização prejudica a população
«Os Verdes» assinalam que a privatização da ferrovia «prejudica as populações, porque em causa estão apenas interesses economicistas e de rentabilidade destes serviços e não o superior interesse público», como se verifica na sequência da entrega do serviço da linha entre Lisboa e Setúbal à Fertagus. «A privatização ameaça a segurança ferroviária como se verificou no Reino Unido», levando à reversão da privatização, na sequência das inúmeras queixas devido a atrasos frequentes, cancelamentos e tarifas elevadas que o modelo privado gerou.
Neste sentido, o PEV rejeita a subconcessão a privados dos serviços urbanos (três na região de Lisboa: Cascais, Sintra-Azambuja e Sado; e a totalidade das linhas suburbanas do Porto). «A ferrovia é um serviço estratégico para o desenvolvimento do País e deve ficar sob controlo estatal», afirmam os ecologistas, reclamando «uma ferrovia segura e acessível, que contribua com um papel relevante para as políticas de mobilidade, no combate às assimetrias regionais, na eficiência energética, na resposta e mitigação das alterações climáticas».
PCP defende ferrovia pública e ao serviço do País
Na apresentação do livro «Desastre na ferrovia. 35 anos de liberalização», Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, defendeu uma política ferroviária integrada numa estratégia nacional de desenvolvimento, rejeitando a privatização das linhas mais rentáveis da CP. Para o dirigente comunista, é necessário integrar na CP toda a operação, a infra-estrutura e a manutenção ferroviária, reforçando o carácter público e nacional da empresa.
Paulo Raimundo criticou os 35 anos de liberalização e as consequências das privatizações e concessões, defendendo mais investimento público, a valorização dos trabalhadores, mais oferta de comboios e a recuperação da produção nacional de material circulante. Defendeu ainda a cooperação e a intermodalidade, a redução dos preços e uma evolução para a gratuitidade dos transportes. «A ferrovia não é coisa de passado, é um sério investimento no futuro», afirmou.




