Brasil e ingerência imperialista

Ângelo Alves

O desfecho das eleições brasileiras terá grande impacto

Iniciou-se a campanha eleitoral para as eleições gerais no Brasil de 4 de Outubro. O seu desfecho terá grande impacto no presente e futuro daquele país e, também, no plano internacional. O Brasil é presentemente uma pedra no sapato opressor do imperialismo: pela sua geografia, população, dimensão económica e recursos naturais; pelo seu peso económico e político internacional, especialmente na América Latina e pelo seu posicionamento; pelo facto de ser membro fundador do BRICS e de manter relações estratégicas com vários grandes países, desde logo a China. Destas eleições sairá um de dois caminhos. Um governo democrático e progressista que aposte no desenvolvimento e na gestão soberana dos recursos do Brasil, no combate às desigualdades sociais e numa política externa independente e soberana. Ou, pelo contrário, um governo de direita comandado pela extrema-direita golpista, com uma agenda fascista em variados aspectos, dominado pelo grande capital brasileiro e transnacional, articulado com forças reaccionárias e fascistas no plano internacional, e que teria como principal missão manter o Brasil aprisionado a uma teia económica primária e rentista, subordinada às corporações internacionais e à estratégia de Trump.

Mas estas eleições não terão “apenas” uma enorme importância interna, terão real impacto internacional, desde logo na América Latina. É por isso que está em curso uma linha de intervenção e ingerência imperialista, articulada com vários sectores da grande burguesia brasileira, que surge na sequência de outros processos de ingerência imperialista na América Latina como na Argentina, Honduras, Chile, Peru e Colômbia; na Venezuela, com rapto do presidente Maduro e a intervenção neocolonial em curso; ou em Cuba com a intensificação do bloqueio e as ameaças. São muitos os sinais que confirmam esse perigo. A recente classificação pelos EUA do Primeiro Comando Capital e do Comando Vermelho como organizações terroristas, em linha com a conhecida instrumentalização do “combate ao narcoterrorismo” para processos de desestabilização e intervencionismo; a aplicação de novas tarifas comerciais ao Brasil visando a deterioração da situação económica e social; a tentativa dos EUA de forçar a nomeação de um Embaixador em Brasília, autêntico homem de mão de Marco Rubio, sem respeitar os usuais trâmites diplomáticos; a tentativa (lograda pela firme reacção do governo brasileiro) de enviar para o Brasil quadros do Departamento de Estado dos EUA com o objectivo de pôr em causa o sistema eleitoral brasileiro e intervir sobre a “liberdade de expressão”, são alguns exemplos do nível de conspiração em que os EUA e os sectores reaccionários e fascistas brasileiros estão envolvidos. Se dúvidas houvesse, o apoio descarado de sinistras figuras como Trump, Marco Rubio, Netanyahu, ou Milei ao corrupto Flávio Bolsonaro, e o imundo conteúdo e tom das suas intervenções, deixam claro os objectivos, métodos e estilo.

É, portanto, necessário estar alerta e prestar toda a solidariedade às forças que têm como objectivo reeleger Lula como Presidente. Essa vitória não afastará por si só todos os perigos que pendem sobre o Brasil e a América Latina, e também não resolverá só por si contradições estruturais do capitalismo brasileiro. Mas é um passo fulcral para travar o passo ao imperialismo, impedir a colonização do Brasil, infligir uma derrota às forças reaccionárias e fascistas e alargar o caminho de unidade das forças progressistas e de resistência dos povos, designadamente da América Latina.

 



Mais artigos de: Opinião

Rentrées há muitas!

Ao dar o tiro de partida com a sua rentrée no Pontal, o PSD, uma vez mais, passou ao lado da vida das pessoas. Montenegro ignorou os mais de 2,5 milhões de trabalhadores que recebem menos de 1000 euros por mês, os tempos de espera que crescem nas urgências hospitalares, ou as mais de 1.666.823...

Observações

O Observador anda atento ao Avante!. Quer dizer, mais ou menos… Há umas semanas, o bem financiado projecto mediático de sectores reaccionários do grande capital notou que o Avante! não anunciou «o fim das eleições na Nicarágua» – o que até é verdade, pela simples razão que esse anúncio nunca foi feito. O que circulou...

O mundo não é um casino

O Expresso fez as contas: só três dos 18 clubes de futebol masculino da I Liga não são patrocinados por empresas de apostas na época que agora começou. Betano, Bwin, Bet.pt, Le Bull, Solverde, Golden Park, Placard / Santa Casa não só patrocinam as equipas, com os logotipos omnipresentes nos equipamentos e nos estádios,...

O “especialista”, o “ranking” e o resto

Há dias o Diário de Notícias publicou um texto retirado de uma investigação da L’Express, revista francesa de “centro direita”, com o “retrato” dos Serviços Secretos de países europeus de orientação NATO. O “ranking” dos Serviços coube a 60 “especialistas” de vinte cinco países – um ex-Chefe de Estação da CIA, 17 chefes...

Lucros excessivos e Impostos

Na questão dos lucros excessivos, o Governo anda, literalmente, a gozar com a malta, e quem lhe alimenta a discussão anda a ser cúmplice desse gozo. O Governo, e todos os que estão ao serviço do grande capital, continua a estimular a discussão sobre a taxa extraordinária que vai criar, sempre para disfarçar a realidade...