Poeta da Revolução
José Carlos Ary dos Santos completaria, no dia 7 de Dezembro deste ano, 90 anos. No sentido de celebrar o aniversário do poeta, escritor, artista, publicista, declamador e militante comunista, o PCP irá promover um programa comemorativo cuja apresentação decorreu no dia 3, em Lisboa.
«Queremos e iremos afirmar e projectar Ary»
«Poeta da Revolução» – é este o mote para as iniciativas que o Partido organizará durante 2026 e até Abril de 2027. O poeta que nos deixou poemas como Desfolhada, Os Putos, Meu Amigo Está Longe, O Futuro, A Cidade é um Chão de Palavras Pisadas, Meu Amor, Meu Amor ou Tourada será recordado por um partido que foi seu até ao final da sua vida.
Comemorar Ary é, nas palavras de Paulo Raimundo, mais que um dever, «motivo de orgulho para o PCP», que toma orgulhosamente para si o «privilégio» e a «responsabilidade» de o celebrar. «A sua obra não é passado, é deste presente que hoje constrói futuro», afirmou o Secretário-Geral, na iniciativa, que decorreu em Alfama.
«Queremos e iremos afirmar e projectar Ary, o intelectual destacado, o militante de convicções inabaláveis, a qualidade e a actualidade da sua obra poética de grande sensibilidade humana, a intensidade política e identificação profunda com os anseios e as aspirações dos trabalhadores», assinalou.
Poeta de Abril e das suas conquistas
Na avaliação de Paulo Raimundo, Ary foi não só «um dos mais importantes poetas portugueses da segunda metade do século XX», como foi um dos mais destacados poetas de Abril.
«Ary traduziu para a escrita esse poema maior que foi a Revolução de Abril. Deu-lhe ainda mais vida, mais brilho, ainda mais poesia», afirmou.
Do dever de “cantar a Revolução” a que o poeta se entregou resultaram algumas das mais emblemáticas obras daquele período. O Secretário-Geral lembrou o exemplo de A Bandeira Comunista, poema que Ary «criou em meia-hora» em repúdio à vaga de ataques terroristas e contra-revolucionários no pós-25 de Abril, especialmente contra os centros de trabalho do PCP. Dos seus versos ficarão, para sempre, na memória dos comunistas e demais democratas, a sua estrofe final: «E a cada novo assalto / cada escalada fascista / subirá sempre mais alto / a bandeira comunista».
Homem da cultura e do seu povo
«Ary tomou partido», garantiu Paulo Raimundo, para quem o poeta foi, acima de tudo, alguém que sentiu «como poucos» o povo, «em quem se inspirou a partir da forma de estar, da cultura, da palavra e da luta».
Ary cantou, ainda, «este Portugal por si amado» e «esta Lisboa» a quem «deu mais vida e tanto viveu de forma intensa e apaixonada com tantos outros».
O poeta foi, referiu, autor de mais de 600 poemas, muitos musicados por «nomes incontornáveis» como Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Tonicha ou Simone de Oliveira – que cantou Desfolhada no Festival RTP da Canção de 1969.
A falta que nos faz
«Não me atrevo nem arrisco tentar adivinhar que palavras utilizaria hoje Ary para descrever a situação» do País, frisou o Secretário-Geral, acrescentando, no entanto, ser «possível imaginar» a «força e acutilância» que empregaria na denúncia dos muitos problemas sentidos actualmente.
A submissão aos grupos económicos, as injustiças crescentes, as 300 mil crianças a viver na pobreza, o aparecimento de novos milionários, os baixos salários e pensões, os ataques ao SNS e ao direito à habitação, a mercantilização da cultura – foram alguns dos aspectos abordados pelo dirigente comunista.
Também por isso, sublinhou, a comemoração permite não só «recordar e reencontrar a sua obra», como desafiar todos em geral, e os mais jovens em particular, a conhecer e tomar como seus cada «palavra, poema, rasgo de criatividade, rosto de expressão de entrega e paixão».
«Um desafio para que tomem partido, tomem nas suas mãos a militância e um ideal cuja bandeira subirá sempre mais alto», destacou.
Momento cultural exalta Ary
A iniciativa contou com uma actuação do cantautor Marco Oliveira, na voz e na guitarra, e da actriz Ana Sofia Paiva, na narração e declamação, que interpretaram excertos de Nos Passos de Ary, espectáculo de poesia e música que celebra o poeta. Os artistas levaram a palco não só poemas e canções emblemáticas de Ary, como textos sobre o poeta, incluindo Rua da Saudade, da autoria dos interpretes.
Programa durará até Abril de 2027
Coube a Bárbara Carvalho apresentar os principais elementos do programa comemorativo do 90.º aniversário de Ary dos Santos, que aqui se sintetizam:
– Na Festa do Avante!, Ary estará presente em poemas espalhados pelo recinto, na venda de materiais próprios e de obras suas na Festa do Livro, na RaveAvante, no Espaço Central e no pavilhão da Organização Regional de Lisboa;
– Entre 2026 e 2027, o Partido irá promover sessões de debate em várias cidades, abordando temas como vida e obra, palavras das cantigas, a sua Lisboa, Ary como poeta da revolução, o publicista, entre outros;
– Em Novembro, as Edições Avante! lançarão uma antologia de poemas de Ary acompanhados de ilustrações de artistas plásticos e ilustradores;
– Em Dezembro, Lisboa acolherá o espectáculo A Voz de Ary – concebido pelo músico Bernardo Moreira – com vários convidados que trarão interpretações e novas adaptações da obra do poeta;
– Em Janeiro de 2027, o PCP irá inaugurar uma exposição sobre Ary na capital, que circulará depois por Coimbra e Porto;
– As comemorações terminarão em torno do 25 de Abril de 2027, nos 53 anos da Revolução a que o poeta deu voz.
Vida cheia de humanidade
Na sua intervenção, Paulo Raimundo lembrou alguns dos momentos da biografia de Ary dos Santos, nascido a 7 de Dezembro de 1936, em Lisboa.
Com 16 anos, saiu de casa, trabalhou em diversas actividades e, nas suas próprias palavras, ganhou «consciência de classe» e conheceu «pessoas» e «amigos» que lhe emprestaram livros, falavam consigo e o ajudaram a «entender muita coisa, a compreender o mundo». Trabalhou como publicista. Em 1954, vê reconhecida a qualidade da sua escrita com a escolha de poemas seus para a Antologia do Prémio Almeida Garrett.
Adere ao PCP em 1969, participa na campanha da Comissão Democrática Eleitoral, intervém nas sessões de poesia do chamado Canto Livre Perseguido e percorre o País de norte a sul. É chamado à PIDE depois de uma sessão na Marinha Grande, no mesmo ano, para explicar o significado de um poema que declamou.
Depois de uma vida de intensa intervenção literária, cultural e política, Ary dos Santos morre cedo, aos 47 anos, a 18 de Janeiro de 1984, na cidade que o viu nascer e crescer.
Soneto do Trabalho
«Arrisco imaginar a sua alegria, a paixão, o fervor nas palavras que só ele encontraria para descrever, à sua maneira muito própria, a grandiosidade, a importância e o significado social, político e ideológico da vitória da luta dos trabalhadores com a derrota do pacote laboral», sublinhou Paulo Raimundo.
Por isso, no encerramento da iniciativa, Bárbara Carvalho convidou todos os presentes a cantar a canção Trabalho, musicada por Fernando Tordo a partir do poema Soneto do Trabalho, de Ary dos Santos, do qual se transcreve a estrofe final: «Levanta-te meu povo. Não é tarde. / Agora é que o mar canta é que o sol arde / pois quando o povo acorda é sempre cedo.»




