E agora?

Jorge Cadima

O Irão continua de pé

A agressão EUA-Israel contra o Irão, iniciada há três meses, tem-se saldado por um fracasso para os agressores. Apesar de semearem destruição e morte, e da aniquilação física de governantes iranianos com quem os EUA estavam em plenas ‘negociações’, a verdade é que nenhum dos grandes objectivos do ataque foi alcançado. Pelo contrário. O Irão continua de pé e assegurou o controlo soberano do seu país. O seu prestígio internacional cresceu. Como relata o New York Times (25.3.26), «muitas das 13 bases militares na região usadas pelas tropas americanas estão praticamente inutilizáveis», como resultado da retaliação iraniana. «Havia cerca de 40 000 tropas dos EUA na região quando a guerra começou, e o Comando Central dispersou milhares delas, algumas para paragens tão distantes como a Europa». Um relatório do Congresso dos EUA reconhece que «pelo menos 42 veículos aéreos militares dos EUA foram destruídos ou danificados», «incluindo aviões de combate, helicópteros e drones», e que há «centenas de baixas» entre as forças norte-americanas (thehill.com, 21.5.26). Face à resistência iraniana, os limites do poderio militar dos EUA tornaram-se evidentes. Tal como os limites de Israel face à heróica resistência libanesa e palestiniana.

As dificuldades e divisões sobre como sair do atoleiro em que se transformou a mais recente guerra do imperialismo duram há semanas. Reflectem-se em ‘notícias’ contraditórias. Há hesitações entre uma escalada para o impensável (reflectida nos posts de Trump sobre a destruição da civilização iraniana) ou um recuo táctico para recobrar forças, evitar o afundamento económico, e adiante voltar ao ataque. Certo é que o imperialismo, ao longo de toda a sua história, mostra-se incapaz de aceitar outra realidade senão a tentativa de impor pela força a sua dominação mundial.

Não são de excluir provocações de grande dimensão. O ‘partido da guerra’ procura a escalada. Cada sector ‘puxa’ pelo seu alvo preferencial. Estão unidos no objectivo comum da dominação sobre os povos. E na prática comum de usar os povos como carne para canhão das suas aventuras belicistas. Mas o declínio e as derrotas expõem as suas clivagens. Hoje, o ‘partido da guerra’ está activamente empenhado em provocações que possam conduzir à generalização da guerra, seja na Europa, na América Latina, ou no Golfo Pérsico. O massacre ucraniano na escola de Starobelsk no Donbass, com os seus 21 mortos, é disso exemplo. Faz lembrar o massacre na escola primária com que EUA-Israel iniciaram o ataque ao Irão. E as reacções ‘ocidentais’ também: nenhuma condenação do ataque intencional ucraniano a civis, mas condenação da retaliação russa. Já fora assim a 28 de Fevereiro: as reacções da UE, a posição conjunta da França, Alemanha e Inglaterra e o comunicado do PM do Canadá, Carney, não condenaram o ataque de EUA-Israel ao Irão, mas condenaram a retaliação iraniana.

As potências europeias parecem querer recuperar a sua vocação histórica para o militarismo imperialista. Convém não esquecer que a Europa foi o berço das duas guerras mundiais, do colonialismo imperialista e do nazi-fascismo. Divididos, e tendo-se atrelado a um curso suicida de vassalagem aos EUA que o desprezo de Trump torna ainda mais grotesco, parecem encontrar na escalada militarista um toque a rebate. Tendo chegado à beira do precipício, parecem determinados em dar um passo em frente. É tempo de dizer basta!

 



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