Cândido Mota, homem de voz memorável e um fonte compromisso cívico e político
Cândido Mota, locutor de rádio, apresentador de televisão e actor, morreu no sábado, 2 de Maio, aos 82 anos. O Secretariado do Comité Central do PCP manifestou «profundo pesar» pelo falecimento do militante comunista, apresentando à família as suas «sentidas condolências».
Cândido foi durante mais de 35 anos a voz anfitriã do Palco 25 de Abril
Nascido em Espinho, a 28 de Setembro de 1943, Cândido Soares Pinto da Mota afirmou-se como «uma das figuras mais emblemáticas da comunicação em Portugal», cruzando uma carreira de excelência com um forte compromisso cívico e político. A partir de 1965 destacou-se no programa «Em Órbita», que revolucionou o panorama musical nacional ao divulgar música anglo-americana e, mais tarde, ao promover a música clássica de forma didáctica.
«A sua consciência política manifestou-se cedo, tendo vivido por dentro o momento fundacional da democracia portuguesa ao encontrar-se nas instalações do Rádio Clube Português, posto de comando do Movimento das Forças Armadas, durante a Revolução de 25 de Abril de 1974, onde permaneceu durante vários dias ao lado de colegas como Luís Filipe Costa e Joaquim Furtado, assegurando a continuidade das emissões que informavam o País sobre a queda da ditadura», recorda o Partido.
Em 1979 alcançou grande popularidade com «O Passageiro da Noite», na Rádio Comercial, um espaço pioneiro de antena aberta. Entre 1986 e 1988 integrou a Telefonia de Lisboa, onde conduziu o programa «Rua do Mundo» e deu voz à rubrica «Panfletos», de Rúben de Carvalho. Na televisão, destacou-se na década de 1990 pela colaboração com Herman José.
Figura incontornável da Festa do Avante!, foi durante mais de 35 anos a voz anfitriã do Palco 25 de Abril, tornando-se símbolo de serenidade e entusiasmo para milhares de visitantes da Quinta da Atalaia. Reconhecido pela sua voz, Cândido Mota foi também um cidadão profundamente empenhado na intervenção social, cultural e política, participando em iniciativas e tempos de antena do PCP e mantendo uma coerência entre a actividade profissional e as suas convicções ideológicas.
Já na fase final da carreira, projectou programas que visavam combater o que considerava ser a «forma mais sinistra de censura» contemporânea – o conceito do politicamente correcto –, defendendo uma rádio que fosse espaço de dúvida, crítica e transmissão de incertezas, em oposição ao mero entretenimento passivo. Para Cândido Mota, a comunicação devia ser uma ferramenta didáctica, informativa e formativa, essencial para a educação e cultura do povo, um princípio que norteou toda a sua vida pública e cívica até à sua morte.
Luta de Cândido continuará
«O Cândido Mota era, para nós, os seus camaradas de Partido, mais do que a grande figura da comunicação que todos conhecem», salientou António Filipe, membro do Comité Central do PCP, na cerimónia fúnebre, na presença das suas filhas, netos, restante família, amigos e camaradas.
No Palco 25 de Abril da Festa do Avante!, «um dia que o Cândido estava de visita aos bastidores do palco, o Ruben de Carvalho e o apresentador de então, João Paulo Guerra, decidiram pregar-lhe uma partida», contou. «O João Paulo disse que tinha a necessidade urgente de se ausentar e foi pedido ao Cândido que, com a sua experiência, improvisasse a apresentação naquela noite. O Cândido acedeu e tão bem o fez, que ficou apalavrado como o anfitrião do palco 25 de Abril por mais 35 anos», explicou.
«Quando no primeiro fim-de-semana de Setembro nos sentarmos naquele banco atrás do palco onde, por entre as tuas sonoras gargalhadas, compartilhávamos as nossas estórias, a tua ausência estará muito presente, mas fica prometido: A nossa Festa e a nossa luta vão continuar», afirmou ao terminar.




