Milhares nas ruas em 19 cidades na Manifestação Nacional de Mulheres
Milhares participaram no domingo, 8 de Março, na Manifestação Nacional de Mulheres, que decorreu em 19 cidades do País, afirmando reivindicações por igualdade, direitos sociais e paz. O Movimento Democrático de Mulheres (MDM) anunciou a realização de uma nova manifestação em 2027 e apelou à participação nas acções pela paz, no próximo dia 14 de Março, nas comemorações do Revolução de 25 de Abril e no Dia do Trabalhador, a 1 de Maio.
«Sem igualdade não há democracia»
Em Lisboa, o desfile partiu da Praça dos Restauradores e reuniu mulheres de diferentes gerações – trabalhadoras, estudantes, reformadas, imigrantes e activistas de diversas organizações. Ao longo do percurso multiplicaram-se faixas, cartazes e palavras de ordem pelo cumprimento da Constituição, a igualdade salarial, o direito à habitação, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde e o combate a todas as formas de violência sobre as mulheres.
Entre as principais mensagens exibidas destacavam-se expressões como «Igualdade é para cumprir», «8 de Março – vida com dignidade, direitos com igualdade», «Sem igualdade não há democracia» e «A igualdade que Abril abriu». Também surgiram reivindicações contra o encerramento de urgências obstétricas, nomeadamente no distrito de Setúbal, contra horários de trabalho desregulados e em defesa da paz.
As palavras de ordem ecoaram durante todo o desfile: «Trabalho igual, salário igual é um direito essencial», «Queremos tecto, queremos chão e o direito à habitação», «Somos muitas, muitas mil para continuar Abril» ou «Paz sim, guerra não».
Além de sindicatos integrantes da CGTP-IN, participaram várias organizações sociais e associativas, entre elas o Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM), o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), o Movimento Unitário de Reformados, Pensionistas e Idosos (MURPI), a União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), a Frente Anti-Racista e a Confederação Nacional dos Organismos de Deficientes, entre muitas outras.
O desfile contou ainda com elementos culturais e simbólicos, como a presença das mulheres da Associação Cantadeiras Essencial Alentejana, vestidas a rigor, e chapéus-de-chuva decorados com mensagens reivindicativas como «Trabalho = salário», «Direito à habitação», «Paz» e «Segurança no emprego».
Denúncia de desigualdades e apelos à mobilização
Nas intervenções realizadas na Praça do Município, onde desaguou a manifestação, foi sublinhada a necessidade de políticas públicas que garantam direitos concretos para as mulheres. Inês Jorge, do Projecto Ruído, destacou que «somos milhares que hoje saímos à rua por todo o País para defender a igualdade no trabalho e na vida», denunciando a precariedade laboral, a violência no namoro e a mercantilização do corpo das mulheres.
A jovem alertou ainda para o crescimento de ideias reaccionárias entre sectores da juventude e para o aumento de casos de violência no namoro, defendendo que essas realidades «não acontecem por acaso», mas resultam de um contexto social que normaliza a desigualdade e a exploração.
Na sua intervenção defendeu a valorização dos salários, o combate à precariedade, mais investimento na escola pública e a efectiva educação sexual nas escolas, sublinhando também a importância da luta pela paz. «Quando os gastos em armamento disparam e nos dizem que a guerra é inevitável, dizemos não. A guerra não serve os povos, nem as mulheres, nem os jovens», afirmou.
Presença pela vida digna
A intervenção central esteve a cargo de Tânia Mateus, do Secretariado do MDM, que destacou o carácter nacional da mobilização. «Milhares disseram presente ao apelo por vida digna, direitos com igualdade. Neste Dia Internacional da Mulher estamos em 19 cidades, de norte a sul e também na Região Autónoma da Madeira», afirmou.
A dirigente sublinhou que a manifestação «não cumpre calendário», mas constitui «história viva de luta das mulheres».
Segundo Tânia Mateus, os problemas que afectam as mulheres – salários baixos, precariedade, rendas incomportáveis ou serviços públicos degradados – «não são fatalidades históricas nem questões individuais, mas opções políticas». Criticou também a degradação de serviços públicos essenciais, referindo dificuldades no acesso à saúde, o encerramento de urgências obstétricas, a falta de creches e o aumento dos custos da habitação. «Quando se emagrece o Estado, quem paga somos nós», apontou.
Defendeu ainda o combate a todas as formas de violência sobre as mulheres, desde a violência doméstica e no namoro até à objectificação e exploração do corpo feminino. «Não há liberdade onde há exploração», sublinhou.
Moção pela paz
Nas iniciativas realizadas em todo o País foi igualmente aprovada uma moção pela paz. Em Lisboa, o texto foi apresentado por Regina Marques, da Direcção Nacional do MDM. Nele se alerta para o agravamento dos conflitos internacionais e para as consequências particularmente dramáticas que estes têm para mulheres e crianças.
O documento denuncia o aumento das tensões e guerras em várias regiões do mundo e apela ao respeito pelo direito internacional e pela soberania dos povos.
Entre as exigências expressas destaca-se o apelo ao Governo português e às instituições internacionais para que promovam políticas de paz e cooperação entre os povos, bem como o cumprimento das resoluções das Nações Unidas sobre «Mulheres, Paz e Segurança».
A moção defende ainda o fim de bloqueios económicos e sanções que afectam populações civis, rejeita o aumento das despesas militares e afirma a necessidade de privilegiar a diplomacia e a negociação para alcançar uma paz «justa e duradoura». Criticada é, igualmente, a participação em operações militares e a utilização de infra-estruturas portuguesas em acções de guerra e apela-se a uma política externa baseada nos princípios da Constituição portuguesa, nomeadamente a não ingerência e o respeito pela autodeterminação dos povos.
Mobilização em todo o País
Além de Lisboa, a Manifestação Nacional de Mulheres realizou-se também no Porto e em cidades como Aveiro, Beja, Braga, Bragança, Coimbra, Covilhã, Évora, Faro, Funchal, Guarda, Leiria, Portalegre, Santiago do Cacém, Torres Novas, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu. Em todas as acções destacou-se a combatividade das mensagens e a criatividade dos materiais encontrados para as fazer passar. A Associação das Mulheres Agricultoras e Rurais Portuguesas (MARP), por exemplo, distribuiu sementes, gesto simbólico que representa a defesa da soberania alimentar e da agricultura familiar, reforçando o papel das mulheres como guardiãs da vida no mundo rural. No Porto, onde o cravo rubro marcou presença em cada punho, também se defendeu o direito à habitação e ao Serviço Nacional de Saúde (SNS).
No final de cada uma das acções ouviu-se «Grândola, Vila Morena» e o hino do MDM.
Luta e afirmação nas ruas
Na manifestação de Lisboa, o Secretário-Geral do PCP, Paulo Raimundo [acompanhado, entre outros, por Paula Santos, líder parlamentar na Assembleia da República, Ricardo Costa, Carina Castro, da Comissão Política, e Manuela Pinto Ângelo, do Secretariado] afirmou que o dia foi marcado simultaneamente por «alegria, comemoração e luta».
Segundo o dirigente comunista, as opções políticas em curso, nomeadamente no plano laboral, podem agravar a precariedade, a desregulação dos horários de trabalho e a pressão sobre os salários – problemas que atingem de forma particularmente dura as mulheres, sobretudo as mais jovens. «Quando se quer aumentar a precariedade, desregular horários e pressionar salários, estamos a andar para trás nos direitos dos trabalhadores e em particular das mulheres», afirmou.
Paulo Raimundo considerou que as manifestações realizadas por todo o País constituíram «uma grande afirmação da força, da dignidade e da determinação das mulheres em não andar para trás», defendendo que o avanço passa por garantir estabilidade no emprego, melhores salários e condições que permitam conciliar o trabalho com a vida pessoal e familiar.
Nas várias expressões da Manifestação Nacional de Mulheres o PCP distribuiu o folheto que editou para assinalar o 8 de Março, que tinha como lema “Exigir a Mudança na vida das mulheres. Cumprir direitos. Efectivar a igualdade no trabalho e na vida”. Aí, o Partido salienta que «só a luta organizada das mulheres pode travar os retrocessos nas suas condições de vida e de trabalho».
Compromisso do PCP com os direitos das mulheres
O PCP assinalou o Dia Internacional da Mulher reafirmando a necessidade de mudanças concretas na vida das mulheres, com o cumprimento dos seus direitos e a efectivação da igualdade no trabalho e na vida. Em nota do seu Gabinete de Imprensa, o Partido recorda que a data foi instituída em 1910 como expressão da luta organizada das mulheres contra a exploração, as desigualdades e as injustiças, pela conquista de direitos económicos, sociais, políticos e culturais, bem como pela paz. Em Portugal, sublinha, a efeméride está ligada à luta de sucessivas gerações de mulheres que integraram o movimento de resistência ao fascismo e participaram activamente na conquista de direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa, aprovada a 2 de Abril de 1976.
O documento assinala ainda que este ano se cumprem 40 anos da Conferência Nacional do PCP «A Emancipação da Mulher no Portugal de Abril», iniciativa considerada marcante no panorama político nacional e que evidenciou a importância da emancipação das mulheres como parte integrante do projecto político do Partido.
Novos perigos
Na análise à situação actual, o PCP considera que a comemoração ocorre num contexto marcado pelas consequências das opções neoliberais da política de direita e pela agenda do Governo PSD-CDS, com apoio parlamentar da Iniciativa Liberal e do Chega. Estas opções, afirma, representam novos perigos para os direitos das mulheres enquanto trabalhadoras, mães e cidadãs.
De acordo com o Partido, persistem problemas como a precariedade laboral, os baixos salários e as dificuldades de progressão nas carreiras, afectando particularmente as mulheres. Denuncia ainda situações de discriminação associadas à maternidade, dificuldades no acompanhamento das grávidas e no parto hospitalar, bem como o encerramento de serviços de urgência de obstetrícia.
As críticas estendem-se ao aumento da idade da reforma, alertando igualmente para as dificuldades enfrentadas por reformadas, pensionistas e idosas. O PCP defende, por isso, o reforço de equipamentos e serviços de apoio à terceira idade, incluindo a criação de uma rede pública de lares.
Continuar a intervir
O Partido reafirma que continuará a intervir no plano político e institucional para combater as várias formas de violência sobre as mulheres e melhorar as suas condições de vida e de trabalho. Entre as medidas defendidas estão o alargamento das licenças de maternidade e paternidade, o aumento de vagas no pré-escolar e a criação de redes públicas de creches e de equipamentos de apoio aos idosos, consideradas essenciais para promover a igualdade e apoiar as famílias.
Apelos à igualdade, justiça social e paz
No Dia Internacional da Mulher de 2026, várias organizações marcaram a data com comunicados que convergem na defesa dos direitos das mulheres, na denúncia das persistentes desigualdades e na reivindicação de melhores condições de vida, trabalho e participação social.
A Confederação Nacional de Reformados, Pensionistas e Idosos - MURPI lembrou que «a luta pela igualdade não tem idade», alertando para as dificuldades que continuam a atingir de forma particular as mulheres trabalhadoras e reformadas. O aumento do custo de vida, o acesso limitado à habitação, a degradação dos serviços públicos e as baixas pensões são apontados como factores que empurram muitas mulheres para escolhas impossíveis entre despesas essenciais. A organização destaca ainda o impacto da falta de creches e da desregulação dos horários de trabalho, que recai frequentemente sobre as avós.
A Confederação Nacional dos Organismos de Deficientes (CNOD) saudou as mulheres com e sem deficiência, recordando que os seus direitos «são para ser cumpridos». A CNOD denuncia desigualdades persistentes, nomeadamente o maior risco de violência, desemprego, precariedade e discriminação que afeta as mulheres com deficiência.
A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) dedicou a sua mensagem às agricultoras, destacando o papel central que desempenham na produção alimentar, na preservação da biodiversidade e na vitalidade das comunidades rurais, ao mesmo tempo que continuam penalizadas pelos baixos rendimentos e pela falta de serviços públicos. A CNA saúda a sua filiada Associação das Mulheres Agricultoras e Rurais Portuguesas (MARP), e reclama políticas públicas que valorizem os preços à produção, revitalizem os territórios e garantam a dignidade das mulheres rurais. A organização lembra ainda que 2026 é o Ano Internacional da Mulher Agricultora, decretado pelas Nações Unidas.
Num comunicado próprio, a MARP reafirma o compromisso de lutar por um mundo rural vivo, com direitos, justiça social, igualdade e paz.
O Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM) associou-se igualmente às comemorações, prestando homenagem às mulheres de todo o mundo e destacando, em particular, a situação das mulheres palestinianas, vítimas de violência extrema no contexto dos conflitos na região.




