Palavra vs. Imagem

Marta Pinho Alves

A voz de Hind Rajab fica como um testemunho de humanidade

Recentemente, um determinado contexto cinéfilo, ou que assim se perspectiva, andou preocupado com a extrema magreza ou flacidez de Demi Moore ao mesmo tempo que procurava descortinar se era o verdadeiro Jim Carrey que se havia deslocado a Paris para receber um prémio de carreira ou alguém que se fazia passar por este. Dias antes, Wim Wenders, indignado com um jornalista que lhe fizera perguntas desconfortáveis durante a sua presidência do júri da Berlinale – reconhecido festival de cinema de Berlim –, afirmava peremptoriamente que os filmes não são sobre política e que não devemos misturar as coisas. Alguns defenderam a declaração do ilustre cineasta alemão, que não fez outra coisa senão política no seu cinema, sendo que agora não lhe convém concordar com esta ideia a propósito da Palestina, outros quiseram problematizá-la perguntando se é ou não legítimo desvincular arte e política. Entretanto, a maioria já andava entretida com os vídeos e artigos múltiplos sobre Moore e Carrey, debatendo dietas, cirurgias plásticas, a ditadura da imagem e como e por quem deve ser decidido como envelhecer.

Mais ou menos neste mesmo tempo, estreou no cinema A Voz de Hind Rajab, filme da cineasta tunisina Kaouther Ben Hania. Baseado num acontecimento real, o filme narra o período de três horas em que uma criança palestiniana, de seis anos, sobrevive a um brutal ataque israelita, escondida entre os corpos mortos de seis familiares, dentro de um automóvel, sem água nem comida. A história de Hind permaneceu, ao contrário da criança, violentamente assassinada após algumas horas de esperança, porque a mesma contactou o Crescente Vermelho palestiniano e deixou registada a sua voz, a sua palavra, nos arquivos áudio desta instituição. A realizadora construiu o filme em torno das palavras proferidas por Hind na gravação real, sem nos deixar ouvir outra voz que a encenasse ou fazer representar a menina por qualquer actriz.

É através da palavra e da sua entoação que acedemos a Hind, ao seu imaginário infantil materializado no nome da sala da pré-escola que frequenta, a “sala borboleta”, nos apelos aos adultos que venham resgatá-la e na fantasia protectora que adopta até determinado momento em que parece acreditar que os familiares mortos estão apenas a dormir. A voz da criança é lúcida, tem medo, mas recusa o absurdo daquela violência e crê que regressará para ao pé da mãe que a aguarda. Desde o início, os operacionais do Crescente Vermelho temem por ela, apesar (ou por causa) dos aparelhos ultra-tecnológicos que têm à sua disposição e que aparentam tudo ver e tudo controlar, por causa da distância diplomática abissal que poderá autorizar o resgate, não obstante a curta distância física da ambulância (a menos de 10 minutos) que poderá encaminhar-se para o local. Além disso, a desconfiança dos que querem salvá-la, de que tudo está a ser visto, monitorizado, que a menina já terá sido detectada por infra-vermelhos pelos agressores, de que esperam o momento exacto em que a ambulância e os seus socorristas entrem na mira dos tanques para os abater. A mesma tecnologia que tudo vê, desoculta, invade, ao serviço da guerra e da destruição. Trezentas e trinta e cinco balas, 355 balas, não sei se tem mais força escrito em numeral ou por extenso, soube-se dias mais tarde, após terminado o cerco, atingiram o automóvel onde seguia a família da criança. Mais uma vez a desproporção, a potência imagética na representação da destruição, muito maior do que a intenção, um aviso, uma manifestação simbólica.

Nos dias em que vivemos, actua-se para que a palavra não vincule. É necessário que não se afirme ou que se faça esquecer o que se afirmou, ou que se diga agora diferente, ou que se indique que afinal não se havia compreendido o que foi dito ou que se apague simplesmente. Não há perigo em dizer, desde que depois se contradiga, justificando que foi necessário, que a isso nos obrigaram outros, que não havia alternativa. As imagens que nos escolhem apresentar, mostram ad nauseam, verificam, evidenciam, aquilo de que nos querem convencer.

A voz de Hind fica como um testemunho de humanidade, de uma que já não é a nossa, alicerçada na consciência e na palavra e não no ocularcentrismo que nos tolda os outros sentidos e a capacidade de reflexão. Chegámos ao ápice da incompreensão da palavra e das suas diferentes interpretações. Com a imagem estamos no culminar de uma unicidade perniciosa e funesta.



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