Transição energética não pode ser feita contra as populações

O PCP defende uma transição energética «planeada, democrática, ambientalmente responsável e socialmente justa», que coloque o interesse público, o ordenamento do território e a participação popular no centro das decisões.

Só no distrito de Castelo Branco há mais de 15 grandes projectos fotovoltaicos

Esta foi uma das conclusões do debate realizado no concelho do Fundão, promovido pela Direcção da Organização Regional de Castelo Branco do PCP. Intitulado “Energias Renováveis: entre a Sustentabilidade e o Negócio”, contou com as intervenções iniciais de Isaura Reis, da Comissão Concelhia do Fundão, Luís Silva, do Comité Central, e Demétrio Alves, especialista na área de energia e ordenamento do território, e a participação e o contributo de eleitos locais, activistas, jovens e cidadãos preocupados com os impactos territoriais e sociais da actual política energética.

Isaura Reis centrou a sua intervenção na realidade concreta do distrito, um território ambientalmente sensível e climaticamente vulnerável, que tem sido alvo de uma implantação acelerada e desordenada de grandes projectos de energia solar fotovoltaica: considerados de forma integrada, são mais de 15, em diferentes fases de licenciamento ou avaliação ambiental, ocupando directamente entre 1200 a 1500 hectares de solo, grande parte do qual classificados como área “agrícola”, “florestal” ou de “elevado valor ecológico e paisagístico”. A que se somam, acrescentou, efeitos indirectos associados a linhas eléctricas, subestações, sistemas de armazenamento e novos acessos viários, o que ampliasignificativamente a pegada territorial destes empreendimentos.

Antes, já Luís Silva tinha enquadrado a intervenção do PCP em matéria de transição energética, sublinhando a necessidade de afirmar uma política energética ao serviço do interesse público, da soberania nacional e da protecção ambiental. E denunciando, ao mesmo tempo, a contradição crescente entre o discurso da sustentabilidade e a prática de um modelo orientado pelo negócio, a concentração económica e a mercantilização do território.

Não pode ser o mercado a dirigir

Para Demétrio Alves, a transição energética não pode ser reduzida a um processo técnico de “descarbonização”, antes ser entendida como uma transformação estrutural com profundas implicações territoriais, sociais e políticas. As metas europeias e nacionais, assumidas por Portugal no Plano Nacional Integrado de Energia e Clima 2030, são ambiciosas e não podem ser operacionalizadas de forma sectorial, acelerada e orientada prioritariamente pelo mercado, sob pena de se transformar o território num mero suporte físico para grandes projectos energéticos, acrescentou.

Sem planeamento territorial integrado, avaliação séria dos impactos cumulativos e participação efectiva das populações, a transição energética não fará mais do que reproduzir desigualdades e aprofundar conflitos, penalizando especialmente as regiões do Interior e de baixa densidade.

Do debate travado, alargado depois à plateia, saiu a convicção de que defender as energias renováveis não é aceitar qualquer projecto em qualquer lugar, nem proceder a uma “transição” feita contra o território e as populações.

 



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