Foi-se o rigor com a enxurrada

Tal como outras rádios, também a do Observador, emissora oficial dos maiores grupos económicos (com donos como Champalimaud, Botton, Carrapatoso, Talone ou a Jerónimo Martins), tem um daqueles programas em que “abre” a sua antena à participação dos ouvintes. Chama-se Contra-Corrente e, fazendo jus ao nome, funciona de forma diferente das versões da concorrência: se, por exemplo, o Fórum TSF dedica a maioria das suas duas horas de emissão à participação de quem para lá liga, no Observador este serve essencialmente como espaço de opinião dos seus protagonistas.

O mentor do projecto, José Manuel Fernandes, e Helena Matos. Foi esta última que, na sexta-feira, dia 6, demonstrou de forma eloquente e simultaneamente o alcance do silenciamento mediático a que o PCP tem sido sujeito e a forma como se constroem falsas narrativas. O programa foi dedicado aos efeitos do mau tempo na campanha eleitoral para a segunda volta das presidenciais. De passagem, não resistiu a fazer uma graça com uma suposta ausência de intervenção do PCP sobre as consequências do mau tempo: «foi levado pela Kristin, está desaparecido em combate, ou nas águas.»

De facto, não foi possível ler ou ouvir no Observador – nem na restante imprensa escrita, rádios e televisões – nada sobre a nota de imprensa do PCP de 29 de Janeiro, a declaração sobre as medidas anunciadas pelo Governo a 1 de Fevereiro, a reacção aos anúncios do primeiro-ministro de 5 de Fevereiro. Nem mesmo uma imagem, uma declaração, uma citação por mais curta que seja, sobre a deslocação de Paulo Raimundo à Marinha Grande, onde contactou directamente com as consequências da tempestade.

Helena Matos acha que o PCP foi levado pelas águas e está desaparecido em combate porque a elite que decide o que é e não é notícia decidiu apagar do espaço mediático o PCP, em particular desde a primeira volta das eleições presidenciais. Ainda antes de as consequências do mau tempo dominarem os espaços noticiosos, nenhuma das estações de televisão sequer deslocou equipas de reportagem ao jantar em Coimbra, a 23 de Janeiro, ao comício de Lisboa, a 24, à sessão pública no Porto, a 27, ou ao comício de Almada, a 31. Também na noite eleitoral da segunda volta das presidenciais, no passado domingo, tivemos mais um exemplo de silenciamento da intervenção do PCP.

No caso das estações de televisão privadas a explicação é simples: a declaração do Secretário-Geral foi silenciada. A RTP não foi tão longe, emitindo cerca de um minuto do final da declaração. E o que se passou na emissão da estação pública nos minutos anteriores de tão importante que impediu um directo na íntegra de Paulo Raimundo? José Rodrigues dos Santos apresentava um mapa dos concelhos do País com a indicação do candidato mais votado em cada um. Uma informação tão premente que o inenarrável pivô da RTP vai dizendo que Seguro liderava em todos menos «num ali junto à fronteira e noutro na Madeira».

Podia ser cómico, não fosse mais um episódio escandaloso e revoltante de silenciamento.

 



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