“Percepções”

Carlos Gonçalves

A “palavra do ano” de 2025, votada na Internet no quadro da iniciativa anual da Porto Editora, foi “apagão”. Entre as consideradas (imigração, fogos, percepção, eleições) estão várias que poderiam merecer atenção. Mas, para o que importa, é útil dar centralidade à palavra “percepção”, uma das mais votadas. A questão, aqui e agora, é que as percepções assumem uma centralidade na leitura dos fenómenos da cultura, da economia, da sociedade, da política, e a partir daí na intervenção e luta ideológica, social e política, que suscitam esta nota.

A percepção humana importa, trata-se de um conjunto organizado de dados de informação sensorial, um processo de curto prazo, activo e complexo, da memória e conhecimento adquirido de cada indivíduo. Há uma psicologia e uma neuro-ciência perceptivas (que se estudam), e que permitem a cada um ter uma percepção própria de uma situação ou de um facto, como uma “pré-consciência” e leitura perceptiva da realidade.

Mas na intervenção institucional, nos media e em matérias e situações várias, não é aceitável, do ponto de vista político e ético, nem eficaz para resolver os problemas, substituir o colectivo, o estudo e intervenção no real e nas suas contradições essenciais, por percepções mais ou menos pessoais. Quando isso acontece, resulta disparate e quase sempre uma mistificação, uma manipulação, que procura um efeito de propaganda ou de desinformação, para servir interesses mesquinhos e não a democracia, os trabalhadores e o povo.

Podemos verificar como as percepções de alguns candidatos à primeira volta das presidenciais conflituaram com o quadro e os resultados (e veremos para a segunda volta); como Montenegro abusa das percepções na saúde e na habitação, contra a realidade da sua desgraçada política; como as percepções do Ch e do governo da AD na imigração e na segurança pública são desmentidas e impedem a resposta necessária aos problemas, etc.. Quando “partem os dentes” no real, das duas uma, ou a culpa é do PCP (“da esquerda”), ou dos excessos dos jornalistas nos media (quase espanta como no caso não lhes basta o controlo de que dispõem).

As percepções políticas desta gente são apenas a mistificação constante e a desinformação fascizante, de que se alimentam, e que devem ser e serão combatidas com a verdade.

 



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