Trafulhices

Jorge Cordeiro

Não causaria surpresa se alguém sem conhecimentos de língua inglesa confrontado com o muito badalado tracking poll seja levado, por intuitiva sugestão, em ver no vocábulo tracking sinónimo de trafulha. Facto que, sendo credor de correcção, não pode deixar de ser recebido com tolerável compreensão, atendendo ao que a coisa em si induz. De facto, face ao que possa escassear em conhecimentos de inglês sobrará de experiência feita que associará conceitos como o de farsa ou burla, engano ou engodo ao que por trafulhice deva ser designado. O que, com compreensível naturalidade e elementar dedução lógica, tipo dois mais dois igual a quatro, se seja levado, perante o que dias a fio quiseram enfiar olhos e mentes adentro de cidadãos mais incautos, a concluir naquele sentido.

Ao que já se ouve por aí sobre ninguém ser dono de cada voto, asserção que em si não parece ser credor de grande contestação, procura esconder e ilibar a operação de condicionamento de voto que faz com que essa ideia de livre opção de voto acabe sequestrada por quem a parir do poder económico garante o controlo e domínio ideológico. A operação que durante duas semanas não deu descanso para liquidar eleitoralmente candidaturas – a partir da insistência até à náusea da divisão de candidaturas entre as que contariam ou não, o que face à natureza unipessoal da eleição assume efeito demolidor; a ardilosa construção de uma disputa inexistente (como os resultados provaram que, apresentados “empatados”, ficaram separados por 15 pontos percentuais!) entre três candidatos para dramatizar artificialmente a eleição; a vigarice que até ao fim se sustentou para dar ideia de um empate entre dois candidatos (que acabaram separados por mais de 7 pontos percentuais), truque indispensável para sustentar a indução a um falso “voto útil” – são expressões dessa operação institucionalizada para fazer esvair convicções e opiniões próprias resultantes do livre juízo de cada um num posicionamento amalgamado sob a intolerável pressão e chantagem de “estudos de opinião” e da corte opinativa que os adorna e lhes presta vassalagem.

 



Mais artigos de: Opinião

Perante os problemas que persistem a luta vai continuar

O ano novo não nos traz propriamente uma vida nova e aquilo a que assistimos é ao aprofundamento das desigualdades, das injustiças e dos problemas do País. Há quem se regozije com os indicadores agora anunciados sobre a pobreza, quando o que eles demonstram é que cada vez mais há trabalhadores...

Sem batom

Uma colorida expressão norte-americana garante que não adianta pôr batom num porco, pois nem por isso deixa de ser um porco. Vem isto a propósito da política do imperialismo. De forma cada vez mais brutal, deixam-se cair as falsas desculpas para aquilo que sempre foi, e será, a essência da política imperialista: a...

O guião

Há episódios passados que nos ajudam a perceber acontecimentos presentes e o caso que aqui se recorda é uma espécie de dois-em-um, porque não só explica muito do que sucede hoje no Irão como tem inclusivamente paralelos com a situação da Venezuela. Falamos do golpe de Estado de Agosto de 1953 que depôs o...

“Percepções”

A “palavra do ano” de 2025, votada na Internet no quadro da iniciativa anual da Porto Editora, foi “apagão”. Entre as consideradas (imigração, fogos, percepção, eleições) estão várias que poderiam merecer atenção. Mas, para o que importa, é útil dar centralidade à palavra “percepção”, uma das mais votadas. A questão,...

Imperialismo

Ao discursar na multitudinária homenagem aos 32 heróis cubanos caídos no criminoso ataque dos EUA contra a Venezuela, o presidente Diaz Canel diz: «O povo de Cuba não é anti-imperialista por manual. O imperialismo fez-nos anti-imperialistas.» Afirmação a reter. Se há categoria estudada pelo marxismo-leninismo que é...