Trafulhices
Não causaria surpresa se alguém sem conhecimentos de língua inglesa confrontado com o muito badalado tracking poll seja levado, por intuitiva sugestão, em ver no vocábulo tracking sinónimo de trafulha. Facto que, sendo credor de correcção, não pode deixar de ser recebido com tolerável compreensão, atendendo ao que a coisa em si induz. De facto, face ao que possa escassear em conhecimentos de inglês sobrará de experiência feita que associará conceitos como o de farsa ou burla, engano ou engodo ao que por trafulhice deva ser designado. O que, com compreensível naturalidade e elementar dedução lógica, tipo dois mais dois igual a quatro, se seja levado, perante o que dias a fio quiseram enfiar olhos e mentes adentro de cidadãos mais incautos, a concluir naquele sentido.
Ao que já se ouve por aí sobre ninguém ser dono de cada voto, asserção que em si não parece ser credor de grande contestação, procura esconder e ilibar a operação de condicionamento de voto que faz com que essa ideia de livre opção de voto acabe sequestrada por quem a parir do poder económico garante o controlo e domínio ideológico. A operação que durante duas semanas não deu descanso para liquidar eleitoralmente candidaturas – a partir da insistência até à náusea da divisão de candidaturas entre as que contariam ou não, o que face à natureza unipessoal da eleição assume efeito demolidor; a ardilosa construção de uma disputa inexistente (como os resultados provaram que, apresentados “empatados”, ficaram separados por 15 pontos percentuais!) entre três candidatos para dramatizar artificialmente a eleição; a vigarice que até ao fim se sustentou para dar ideia de um empate entre dois candidatos (que acabaram separados por mais de 7 pontos percentuais), truque indispensável para sustentar a indução a um falso “voto útil” – são expressões dessa operação institucionalizada para fazer esvair convicções e opiniões próprias resultantes do livre juízo de cada um num posicionamento amalgamado sob a intolerável pressão e chantagem de “estudos de opinião” e da corte opinativa que os adorna e lhes presta vassalagem.




