O guião

Gustavo Carneiro

Há episódios passados que nos ajudam a perceber acontecimentos presentes e o caso que aqui se recorda é uma espécie de dois-em-um, porque não só explica muito do que sucede hoje no Irão como tem inclusivamente paralelos com a situação da Venezuela.

Falamos do golpe de Estado de Agosto de 1953 que depôs o primeiro-ministro iraniano Mohammad Mossadegh. Está lá tudo: o domínio dos recursos naturais e energéticos, a ingerência do imperialismo, a desestabilização interna, a criação de narrativas mediáticas favoráveis ao golpe – e a consumação do próprio golpe.

Para perceber o fio dos acontecimentos é preciso recuar pelo menos até ao final da Segunda Guerra Mundial, quando o Irão era um país dependente e empobrecido, com grandes empresas estrangeiras a dominarem, no essencial, a ferrovia, as minas, os bancos, o tabaco e as vastas reservas de petróleo do país. Neste último caso, sobressaía a Anglo-Iranian Oil Company, mais tarde renomeada British Petroleum, a nossa bem conhecida BP.

Mas a antiga Pérsia não ficou à margem dos ventos libertadores e emancipadores que no pós-guerra varreram todo o mundo e, em particular, os países dependentes e os territórios coloniais: no final da década de 40 era já generalizada a exigência de que o petróleo iraniano deveria beneficiar acima de tudo os iranianos e, em Maio de 1951, o parlamento aprovou de forma quase unânime a proposta apresentada pelo governo da Frente Nacional, liderado por Mohammad Mossadegh, de nacionalizar o sector petrolífero.

Celebrada no Irão, a medida provocou a ira das elites britânicas. Seguiu-se a imposição de sanções, o boicote ao petróleo, o bloqueio dos portos iranianos (não vos lembra nada?). Temendo que a ousadia persa alastrasse, os EUA rapidamente se juntaram à Inglaterra para derrubar Mossadegh: nascia a “Operação Ajax”, elaborada em conjunto pela CIA e o MI6, e cujos contornos gerais são hoje conhecidos após a desclassificação parcial de documentos por parte da agência norte-americana.

O que se seguiu fez escola e foi – e continua a ser – replicado nessa como noutras latitudes: a compra de militares, dirigentes políticos, empresários e líderes religiosos; a cooptação de gente disposta a cometer actos violentos e atentados terroristas; o financiamento a órgãos de comunicação social para atacarem o primeiro-ministro, desgastar-lhe a imagem, corroer a sua base de apoio, num momento em que as sanções económicas faziam sentir os seus impactos junto das camadas mais desfavorecidas da população iraniana (também já vimos este filme).

O golpe consumou-se em Agosto de 1953, Mossadegh foi preso, o Irão retomou a sua submissão ao imperialismo e o petróleo voltou a jorrar para Ocidente – até à revolução de 1979.

Aprendamos com a história. O imperialismo é certo que o faz.



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