O dever imposto e o seu reverso

Marta Pinho Alves

Todo o cinema, seja ele documental ou ficcional, apresenta uma visão do mundo que quer partilhar

vbsmr (pixabay.com)

Vem esta reflexão a propósito de uma conversa tida no clube de leitura de que faço parte promovido por uma livraria setubalense. No final de cada sessão, sempre muito ricas, participadas, com diferentes perspectivas e, por vezes, até com discordâncias acesas, decidimos por votação secreta o livro da próxima edição, a partir de uma selecção feita previamente pelos livreiros. Após o apuramento do resultado, soubemos ter ganho um escritor em cujo pensamento não me revejo. Perante o facto, declarei-o ao grupo e disse que não iria ao próximo encontro porque não queria ler aquele livro. Uma das minhas colegas disse-me com o ar mais professoral e pedagógico que lhe foi possível: «É necessário ser capaz de separar a obra do autor!» Sorri-lhe e não contestei. Naturalmente, mantive a minha decisão de não participar. É necessário? – interroguei-me. Não. É possível, é aceitável, deve fazê-lo quem assim o entenda. Necessário não é, nem creio que no meu caso seja capaz de fazê-lo.

A expressão artística, seja ela performativa, na pintura, literária ou cinematográfica (a que aqui nos ocupa) comunica mundivisões, formas de perspectivar o mundo e de lhe dar sentido. E mesmo aquela que evoca privilegiar dimensões formais ou estéticas é frequentemente incapaz de se alhear de um olhar sobre a realidade ou a reflexão em que se centra. Mesmo os estudos da recepção que afirmaram, a determinado momento, que a obra se constrói apenas na relação com o seu receptor e que este define o significado a atribuir-lhe (ver Obra Aberta de Umberto Eco), concederam, mais adiante, que a mesma está pré-codificada pelo autor e contexto de produção e que a negociação de sentido possível ao leitor é limitada (ver Os Limites da Interpretação do mesmo autor antes citado).

Admitindo, pois, que todo o cinema narrativo (e talvez não apenas este), seja ele documental ou ficcional, apresenta uma visão do mundo que quer partilhar, foram, ainda assim, construindo-se designações para aludir ao cinema engajado, isto é, para um cinema que pretende de forma declarada reflectir sobre temas e causas políticas e sociais. Formulações como cinema político, cinema militante ou cinema de intervenção, têm sido frequentemente usadas.

Exemplo integrável nesta categoria é o trabalho do cineasta palestiniano Mohammed Almughanni, que tem desenvolvido uma cinematografia centrada na justiça étnica e racial e na vida política e social dos cidadãos em contextos de guerra, com especial atenção ao caso da Faixa de Gaza.

Almughanni alterna a sua escrita fílmica entre a ficção e o documentário, sem alterar o seu propósito, comentar as causas que o motivam. Se observarmos dois filmes do realizador, Shujayya (documentário, 2015) e An Orange From Jaffa (ficção, 2024), observaremos que em ambos, o cineasta analisa a situação do seu país e o quotidiano dos que o habitam, procurando contribuir para o fim da destruição que se lhes impõe e para o esclarecimento do público global.

Esta intervenção é hoje facilitada pelo contexto de circulação digital dos filmes, sem custos, incentivada pelo realizador, que tem propiciado contextos de elucidação, debate e contestação em relação à actual situação do povo palestiniano e de defesa da sua luta. Nas duas vezes por nós contactado enquanto se encontrava a filmar em Beirute, no Líbano, o cineasta acedeu a que projectássemos os seus filmes e disponibilizou-nos versões de elevada definição, para que os usássemos como pretexto e testemunho para falar sobre o tema que o (nos) move.

Em relação ao escritor que não quis ler, não ponho em causa a sua capacidade de escrita, criatividade ou originalidade narrativa e admito que a outros não incomode, porque lhes parecem distantes ou não inquietantes, as ideias que professa. Contudo, os óculos que uso para ver o mundo não me permitem ser indiferente às grandes ideias que norteiam o pensamento de um autor e à forma como isso se repercute na sua criação.

 



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