Invertebrados
A agressão dos EUA contra a Venezuela e o rapto do presidente Nicolas Maduro e da primeira-dama Cília Flores motivaram um extraordinário número de contorcionismo: os que ainda há dias diabolizavam Trump e o que a sua Estratégia de Segurança Nacional diz sobre a Europa, se indignavam com as suas pretensões à Gronelândia e vociferavam contra as violações do direito internacional e da soberania dos Estados (relativamente à Ucrânia e só à Ucrânia, claro), vêm agora relativizar e justificar a agressão contra um Estado soberano. Particularmente graves são as declarações dos responsáveis políticos, reveladoras de uma antiga e comprovada postura servil ao patrão norte-americano. Nenhum brio patriótico, nenhum respeito pela Constituição, nenhum vislumbre de uma política externa independente – nada mais do que vergonhosa submissão.
No sábado de manhã, o Presidente da República garantia estar a «acompanhar a situação» e mais tarde afirmava-se focado no «restabelecimento da democracia». O primeiro-ministro, Luís Montenegro, constatou o «papel dos EUA na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática e inclusiva» e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, considerou «benignas» as intenções dos EUA e viu o desrespeito pelo direito internacional como um mero pormenor. Que o próprio Trump se tenha referido à Doutrina Monroe e afirmado que os EUA vão «mandar na Venezuela» ou que a palavra mais vezes referida na sua declaração tenha sido «petróleo» não desviou o Governo e o Presidente da República do seu servilismo – e lá continuaram, patéticos, a falar em “democracia” e “direitos humanos”. O mesmo que fizeram, aliás, os representantes da União Europeia, que estão a «acompanhar de perto» a situação e apelam à «contenção». Esfumou-se toda aquela farronca em defesa das “regras” internacionais, pelos vistos tão maleáveis quanto as espinhas desta gente.
Ridículos foram também os papagaios que todos os dias preenchem os espaços de comentário das televisões portuguesas: são “especialistas” em assuntos militares, em direito internacional, em tudo o mais que se possa imaginar, mas não viram nada de especial no bombardeamento de um país, no assassinato de 80 pessoas e no rapto de um chefe de Estado. E, como é evidente, ninguém questionou ninguém sobre se “condena ou não condena” e houve até quem tenha garantindo ser cedo para falar em “invasão”: no caso da Venezuela, é preciso tempo, claro, nada de precipitações…
Por mais que choquem, estas atitudes não surpreendem. O imperialismo sempre teve por cá os seus lacaios e amestrados porta-vozes: tal como houve quem tenha visto as inexistentes armas de destruição massiva no Iraque e garantido não haver genocídio em Gaza, hoje também há quem secunde cheio de certezas as acusações inventadas por Trump contra o poder bolivariano.
São uns invertebrados.




