Quantas crianças são precisas?
Há cerca de 300 mil crianças em situação de pobreza em Portugal.
Ouvimos o número e parece que levamos um murro no estômago.
Como é possível que, na segunda década do século XXI, na Europa civilizada, no país da OCDE cujo primeiro-ministro se vangloria de ter o maior crescimento, tendo mesmo direito ao prémio da melhor economia, como é possível deixar assim para trás 300 mil crianças, e só não é mais porque as prestações sociais têm um efeito atenuante? Como é possível que, no País que esteve desde a primeira hora na defesa da Convenção dos Direitos das Crianças, uma boa parte destas sejam oriundas de famílias cujos pais trabalham? Como é possível que nas famílias cujos pais têm baixa escolaridade a percentagem de pobreza infantil atinja a assustadora cifra de 34,3%? E, ainda mais surpreendente, como é possível que nas famílias em que os pais têm educação superior existam ainda 8,9% das crianças nessa ultrajante situação?
As perguntas não deixam de nos assaltar e para todas elas aparece sempre a mesma resposta. É possível porque a política de direita, com o seu objectivo de facilitar a concentração da riqueza nas mãos de uns poucos capitalistas, assim o impõe. Agora mesmo, uma das linhas mestras do pacote laboral de que o Governo diz não querer abdicar, passa por roubar às crianças o direito a terem os seus pais presentes.
Pensando no estudo do investigador Carlos Farinha Rodrigues, questionamo-nos ainda em que condições vivem estas crianças, quando as famílias portuguesas são confrontadas com custos de habitação incomportáveis. E a que serviços de saúde acedem, que apoios têm na educação para potenciar as suas qualidades, que desportos praticam?
E, no final, há sempre a questão que Almeida Garrett popularizou. Quantos pobres são precisos para fazer um rico? Neste caso, quantas crianças?
Tantas quantas forem necessárias, dirão eles. 300 mil agora, nuns momentos umas quantas menos, noutros, umas quantas mais.
Diremos nós que um sistema que assente nem que seja um pequeno pilar numa réstea de humanismo, não admitirá nem uma. E é por isso que é preciso substituir este sistema predador, irracional, violento, o capitalismo, por um outro. E é esse, por cada uma dessas crianças, o nosso compromisso para mais um ano. Lutar sem descanso pelo socialismo. Passo a passo.




