O paraíso

Gustavo Carneiro

Segundo a narrativa em voga, redigida num qualquer gabinete em Washington e diligentemente amplificada pelas gigantescas cadeias mediáticas ocidentais, o “socialismo” de Maduro – como, antes, de Chávez – destruiu a outrora próspera economia venezuelana e empobreceu o seu povo. A “Venezuela saudita” em que o petróleo jorrava, o nível de vida e o poder de compra não tinham paralelo na América Latina e os hotéis eram luxuosos (como escrevia a BBC em 2024), terá dado lugar a uma “nova Cuba”, pobre e faminta, com a paisagem marcada por intermináveis favelas e o poder dominado por gangues criminosos…

Nesta versão há muitas falsidades e outras tantas omissões. Nessa tão falada “era dourada”, das poucas vezes que a Venezuela era notícia nunca se referia as dramáticas consequências das receitas neoliberais, da submissão ao imperialismo norte-americano e da imposição de um modelo rentista e parasitário assente apenas no petróleo, que nas décadas de 80 e 90 fizeram do país um dos mais desiguais do mundo: o luxo de uns poucos coexistia com a miséria da maioria. À data da primeira vitória eleitoral de Hugo Chávez, em Dezembro de 1998, metade dos venezuelanos estava na pobreza (e 20% na extrema pobreza) e eram ainda mais os que se amontoavam nos bairros degradados das periferias das grandes cidades, sobretudo da capital, Caracas: as tais favelas não só não surgiram com o “chavismo” como a Revolução Bolivariana realojou milhões de pessoas, assumindo o desígnio da garantia do direito a uma habitação digna.

De fora das notícias (e tantas que foram, e são) ficaram também, ao longo dos últimos 25 anos, os extraordinários avanços alcançados pelas forças bolivarianas, que revelam tanto da “nova” Venezuela como da “antiga”: a universalização do ensino e da saúde, a erradicação do analfabetismo e a redução expressiva da desnutrição, da mortalidade infantil e materna – reconhecidas por agências internacionais. Até à implementação do programa “Bairro Adentro”, em 2003 – com participação destacada de médicos cubanos –, os mais pobres estavam arredados do acesso à saúde, que na tal Venezuela “rica” e “próspera” era quase toda privada e não entrava, nem queria entrar, nos bairros populares. Mais mediáticos foram os problemas económicos e sociais dos últimos anos, mas não as suas causas: das sanções unilaterais ilegais, dos constrangimentos impostos à economia, do roubo de activos financeiros e de petróleo, pouco se disse – e nada se explicou.

Se o objectivo de liquidar o processo bolivariano é evidente, há outro não menos central: apagar o lastro de desigualdades e injustiças deixado pela oligarquia e o imperialismo, que é precisamente o programa dos que hoje se escondem por detrás de Edmundo González e Maria Corina Machado. Caso vencessem, a Venezuela desapareceria novamente das notícias. Voltaria o “paraíso”.

 



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