Ingerências no Benim

Carlos Lopes Pereira

O Benim foi cenário, recentemente, do que foi descrito como uma tentativa de golpe de Estado, sufocada pela intervenção de tropas estrangeiras.

Na madrugada do dia 7, militares chefiados pelo tenente-coronel Pascal Tigri amotinaram-se e ocuparam a televisão estatal, entre outros objectivos em Cotonou, a capital política do país. Pouco depois de terem anunciado a dissolução do governo e de todas as instituições estatais, a destituição do presidente Patrice Talon e a formação de um “Comité Militar para a Refundação”, foram desalojados e derrotados. O alegado líder da rebelião escapou e há informações de que se encontra refugiado «num país vizinho».

Soube-se, posteriormente, através da imprensa africana e de fontes partidárias, que a revolta militar foi derrotada após a intervenção de tropas enviadas pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), com a ajuda da França, antiga metrópole colonial do Benim. Paris confirmou que auxiliou o regime de Cotonou «em termos de vigilância, observação e apoio logístico». O esmagamento da rebelião incluiu bombardeamentos aéreos e incursões terrestres por tropas nigerianas.

Depois da fracassada revolta, que causou um número indeterminado de mortos militares e civis, o governo beninense confirmou a continuação da presença no país, a seu pedido, de cerca de duas centenas de soldados da vizinha Nigéria, uma das maiores economias africanas, e da Costa do Marfim, um fiel aliado da França.

Diversas organizações políticas, incluindo Os Democratas, a maior força oposicionista no Benim, têm denunciado a vaga repressiva lançada pelo regime após os acontecimentos de 7 de Dezembro, uma autêntica «caça às bruxas», com a perseguição e detenção de dirigentes e activistas de diferentes partidos.

Não se sabe se o regime de Cotonou manterá o calendário eleitoral previsto, com a eleição para a presidência da República marcada para Abril do próximo ano. Patrice Talon, que ocupa o cargo desde 2016 – está no fim do segundo mandato de cinco anos –, escolheu como candidato um seu antigo ministro das Finanças, Romuald Wadagni, favorito à vitória. Até porque o principal candidato da oposição, Renaud Agbodjo, foi rejeitado pela comissão eleitoral, a pretexto de «falta de apoios»…

Os acontecimentos no Benim expressam bem a instabilidade que prevalece na África Ocidental – onde um dos problemas mais graves é a crescente insegurança criada pela actividade de grupos extremistas armados – e evidenciam o papel que a CEDEAO tem desempenhado como bloco ao serviço dos interesses do imperialismo, nomeadamente o francês.

Neste contexto regional, o Benim desempenha, sobretudo nos últimos anos, um papel importante, beneficiando da sua situação geográfica: com saída para o Atlântico, faz também fronteira com a Nigéria, o Togo, o Níger e o Burkina Faso. E, precisamente, o regime do Benim, fortemente apoiado pela França e pelos seus aliados africanos, tem dificultado e mesmo proibido as exportações e importações nigerinas e burquinenses através dos seus portos atlânticos.

O Níger e o Burquina Faso integram a Aliança dos Estados do Sahel, juntamente com o Mali, e romperam laços de dependência com a antiga potência colonial, a França, expulsando as tropas de Paris e tomando nas suas próprias mãos a exploração dos seus recursos naturais, em benefício dos seus povos.

 



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