Nos 120 anos de Ruy Luís Gomes

Rogério Reis

Ruy Luís Gomes concebe a Ciência como modo de melhor entender a realidade de modo a poder transformá-la

Completam-se, no próximo dia 5 de Dezembro, 120 anos do nascimento de Ruy Luís Gomes. Pelo destacado papel e importância que teve a sua acção na nossa história do século XX, pelo carácter exemplar da sua atitude e comportamento sempre consciente do contributo que lhe era pedido para, em prol dos seus concidadãos, transformar a realidade portuguesa, importa aqui recordar os principais traços do seu percurso.

Licenciado em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, conclui o seu doutoramento em 1927, passando primeiro aí a leccionar para, em 1929, se transferir para a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde em 1933 passa a ser professor catedrático. Desde cedo corresponde-se com grandes nomes da Ciência, como Krylov, de Broglie ou Levi-Civita. Publica dezenas de artigos científicos, algo incomum no fechado, atrasado e improdutivo torpor em que a Universidade portuguesa havia caído há muito. Prolífero palestrante e divulgador da Ciência, é um dos primeiros a divulgar os trabalhos de Einstein, e a sua Teoria da Relatividade, em Portugal.

Numa dessas iniciativas, estabelece contacto com Aniceto Monteiro, com quem dinamiza o chamado movimento matemático português, onde vêm a participar nomes como Bento de Jesus Caraça, Hugo Ribeiro, Silva Paulo, Zaluar Nunes, Mira Fernandes, Beirão da Veiga, Neves Real, José Morgado e Alfredo Pereira Gomes (irmão de Soeiro Pereira Gomes), e que pretende criar as estruturas necessárias para o fomento do estudo e investigação em Matemática, captando jovens talentos, e revolucionando assim a atitude e ensino da Universidade portuguesa.

Funda a Associação Portuguesa de Matemática, a Gazeta de Matemática, promove palestras de divulgação difundidas pela rádio, promove a criação do Centro de Estudos Matemáticos do Porto (hoje Centro de Matemática da Universidade do Porto) e da Junta de Investigação Matemática. Tal foi o ímpeto e impacto destas iniciativas, o seu carácter moderno e progressista, que o governo fascista logo se apressou a encerrar todos os clubes de matemática, dirigidos a jovens, que Aniceto Monteiro tinha fundado em Lisboa.

Como consequência do seu protesto pela prisão pela PIDE de uma sua aluna, é demitido, sem possibilidade de reingresso, em 1947, da sua posição de professor catedrático da Universidade do Porto.

Conhecer para transformar
Longe do arquétipo do cientista isolado da sociedade que o rodeia, Ruy Luís Gomes só concebe a Ciência como um modo de melhor entender a realidade por forma a poder transformá-la. É apoiante desde o primeiro momento do Movimento de Unidade Democrática (MUD), do qual participa na sua assembleia fundadora, em 1945. Preside a um comício do MUD no Porto, onde conhece Virgínia Moura e Lobão Vidal, que juntamente com José Morgado passarão a ser seus companheiros de trajecto cívico e político durante toda a sua vida.

Extinto o MUD, ainda na dinâmica criada pelas comissões de apoio à candidatura de Norton de Matos, é criado o Movimento Nacional Democrático (MND): Ruy Luís Gomes preside à sua Comissão Central, de que fazem parte, entre outros, José Morgado, Virgínia Moura e Maria Lamas.

Apresentado como candidato à Presidência da República pelo MND, em 1951, é impedido de concorrer pelo Conselho de Estado fascista, ao abrigo de uma alteração constitucional entretanto aprovada à pressa para o efeito. Os termos e programa da sua candidatura, expressos na proclamação então publicada, são de uma tal actualidade e modernidade, que merecem ser revisitados. A compreensão que a democracia política (à altura inexistente) é indissociável da elevação das condições de vida das populações e o assegurar os seus direitos laborais, portanto, da existência de uma democracia económica; que o acesso generalizado à Cultura e Ciência é imprescindível para uma cidadania consciente e participativa; que a luta pela Paz é um dos aspectos centrais da luta pela Democracia; são traços marcantes e distintivos deste documento. No ano seguinte, e a propósito da criação da NATO, da qual o Portugal fascista é membro fundador, não deixa de assinar em nome da direcção do MND, um documento que denuncia tal organização como um verdadeiro “pacto de agressão”. Em 1954, o MND publicará uma nota oficiosa, a propósito da situação dos territórios de Goa, Damão e Diu, onde se afirma o direito dos povos à sua autodeterminação, e da via negocial como única via de saída para a situação criada, contrariando o histerismo belicista da campanha então promovida pelo governo fascista.

Em traços largos poderíamos dizer que as principais linhas do programa da candidatura 1951, tomadas em consideração as diferenças devidas às significativas diferenças do contexto histórico, foram plasmadas no que, 25 anos mais tarde, veio a constituir princípios base da Constituição da República Portuguesa, saída de Abril. Assim como também é natural e legítimo o estabelecimento de paralelos entre a candidatura de então de Ruy Luís Gomes e a actual candidatura de António Filipe à Presidência da República, que insiste em colocar no centro da discussão a imprescindível necessidade de retomar os princípios e o rumo inscrito na nossa Constituição como linhas programáticas para assegurar a construção de um Portugal mais justo.

Exílio e revolução
Na década que se seguiu à constituição do MND o fascismo não perdoou Ruy Luís Gomes, e os seus companheiros da Comissão Central. Preso uma dezena de vezes, acusado mesmo de “traição à Pátria”, impedido de exercer a sua profissão e prosseguir o seu trabalho científico, é obrigado a exilar-se, primeiro na Argentina e depois no Brasil, onde, juntamente com José Morgado, cria uma importante escola de matemática na Universidade do Recife. Nunca se afastando da luta antifascista, mesmo que fisicamente afastado do seu país e seu povo, não deixa de promover campanhas internacionais de solidariedade para com a luta contra o fascismo e colonialismo português.

Regressado imediatamente a seguir à Revolução de Abril, é aclamado reitor da Universidade do Porto e reintegrado na sua legítima posição de Professor catedrático. Durante o seu curto mandato como reitor, porque se aposenta em 1975, ainda funda a Casa Museu Abel Salazar, assim como o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar na Universidade do Porto.

Até 1984, ano em que morre, continua a empenhar todas as suas energias na prossecução dos ideais de democracia e justiça social por que toda a vida lutou.

 



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