Para Ler Camões, de António Carlos Cortez
“Este livro de Cortez, ensina-nos a ler a lírica camoniana à luz dos tempos que vivemos”
Camões é, segundo Somerset Maugham, o autor da última das grandes epopeias, o autor que descreveu, de forma erudita e superior, a gesta de um povo que a fome e os maus tratos da vida atiraram para o bojo das caravelas em busca de fortuna, sossego e marmita abonada. Desejos nem sempre almejados, dado que a fortuna a outras mãos mais hábeis foi parar, o desassossego existencial permaneceu e o escorbuto, essa doença crua e feia, tornara-se pasto pior que aguentar as chicotadas da maligna nas imundas ruas de Lisboa. Pobre lusíada, coitado, escreveria António Nobre, séculos volvidos. Mas a alma do povo miúdo, esse peito lusitano que, à falta de heróis como os que habitam a Ilídia ou a Odisseia, junto com deuses de todos os matizes, serviu a esse poeta do povo num mundo em mudança, como escreveu António Borges Coelho, para tecer os cantos mais altos e geniais na nossa poética.
Para Ler Camões, de António Carlos Cortez, professor universitário, poeta, ficcionista e crítico literário, fala-nos do Camões lírico, dessa vasta produção poética entretanto reconstituída a partir desse desaparecido (roubado?) Parnaso, que juntava as suas líricas, segundo indicação de Diogo do Couto1, numa exposição crítico-didáctica que reúne 35 poemas da lírica camoniana, que pretende trazer de novo à escola (aos alunos e professores dosensinos Secundárioe Superior), um poeta remoçado, ágil, entendível e capaz de ser fruído pelos jovens de hoje, ou seja: Ler a poesia de Camões, diz-nos o autor, tendo-o à nossa cabeceira como luz que ilumina o caminho de quem estuda e de quem ensina em tempo de regresso de monstros antigos e invenção de novos monstros.
As pistas de Leitura avançadas neste importante estudo de António Carlos Cortez vão, quanto a mim, muito para além do universo escolar, é um livro aberto a todos os que amam a língua que nos é comum e a poética do seu grande escultor. Pelo modo pedagógico e apaixonado como o autor revela a sintaxe e as questões axiais de cada soneto, mesmo aqueles que serão mais herméticos, numa linguagem clara e sem os habituais tiques academizantes em obras afins.
Num mundo em desconcerto, a poesia de um visionário ainda faz sentido, uma poética que nos tenta despertar da sonolência suicida em que gastamos os dias, em que deixamos “os monstros” caminhar ao nosso lado e tentar dominar, com o ódio infrene das palavras, a pólis? Quem escreveu, há 500 anos, estes versos, estas inquietantes interrogações, Quem pode ser no mundo tão quieto,/ou quem terá tão livre o pensamento,/tão fora, enfim, de humano entendimento/que, ou com público efeito, ou com secreto,/lhe não revolva e espante o sentimento,/deixando-lhe o juízo quase incerto,/ver e notar do mundo o desconcerto?, faz parte do nosso tempo, é companheiro dos nossos desassossegos, da nossa perplexidade: como chegámos a esta vil tristeza que a alguns tolhe o entendimento?
Este livro de Cortez, ensina-nos a ler a lírica camoniana à luz dos tempos que vivemos, do medíocre e loquaz discurso que invade o tempo mediático, e coloca-nos perante o que é urgente e essencial, ou seja, mudar este estado de orgânica ignorância: ler, ler tudo e, sobretudo entender. É com um apodítico e dialéctico discurso que António Carlos Cortez fecha esta sua abordagem pedagógica pelos labirintos linguísticos e temáticos dos sonetos, endechas e canções do nosso vate: a «experiência da alteridade, consubstancial à Literatura como produto e processo cultural, resgata o Homem do seu próprio passado, fazendo-o recusar a ideia de um já-feito da História em que as forças de um poder concentracionário novamente pretendem apagar, mistificando, conquistas e direitos inalienáveis da Europa e do Mundo. Enquanto “operador de socialização”, defende-se, em suma, a Literatura (e as artes) como diálogo, cooperação, edificação de relações humanas na linguagem; Literatura como corporeidade e também operador de historização (e transformaçãohistórica) do humano. Se quisermos, invenção, humanização, poesia.
O autor não fecha este livro sem referir autores que, ao longo de várias épocas, desbravaram os territórios semânticos, temáticos, comunicacionais e emotivos da lírica de Camões: Aguiar e Silva, Helder Macedo, Fiama Hasse Pais Brandão e Yvette Centeno; resgatando vários contributos críticos de Óscar Lopes sobre Camões, salientando o humanismo de rosto social presente na sua obra e a educação do gosto como trave-mestra para uma pedagogia socialista e democrata; não esquecendo Manuel Gusmão e esse incontornável ensaio Uma Razão Dialógica – ensaios sobre literatura, a sua experiência do humano e a sua teoria.
Para Ler Camões, ou como o relermos: eis o oportuno e estimulante desafio de António Carlos Cortez.
Para Ler Camões, de António Carlos Cortez – Edição Página a Página/2025




