Voz à solidariedade e aos povos da América Latina e das Caraíbas
Num dos momentos mais tensos das últimas décadas na América Latina e Caraíbas, a braços com a intensificação das ameaças do imperialismo norte-americano contra vários países, teve lugar no dia 5, em Lisboa, uma sessão de solidariedade com os povos do subcontinente e a sua luta pela soberania.
Promovida pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) e a Associação de Amizade Portugal-Cuba (AAPC), a iniciativa realizou-se naquele que é já, e desde há muito, um lar da solidariedade internacionalista, a Casa do Alentejo. Apesar da chuva forte que caía, dezenas de pessoas fizeram questão de marcar presença, reafirmando assim que estão do lado da paz, dos direitos dos povos e de uma ordem internacional mais justa. Na mesa, com Isabel Camarinha e João Terreiro (do CPPC e da AAPC, respectivamente), estiveram a embaixadora da República Bolivariana da Venezuela, Mary Flores; o embaixador da República de Cuba, Jose Saborido Loidi; e o representante do núcleo de Lisboa do Partido dos Trabalhadores (PT), do Brasil, Pedro Prola.
As intervenções, sobretudo as dos convidados internacionais, constituíram importantes testemunhos da situação actual na região, tão diferente daquela que nos chega pela generalidade dos órgãos de comunicação social, em que domina a narrativa do imperialismo.
Preocupações e garantias
A diplomata venezuelana denunciou que a recente campanha militar dos EUA já tinha, até àquele momento, provocado 62 mortes. Para lá da extrema violência dos ataques, prosseguiu, não foram apresentadas quaisquer provas da ligação das embarcações visadas ao narcotráfico. Para Mary Flores, trata-se de um «padrão preocupante de uso desmedido da força, em que a presunção da culpa ditada pelos serviços de inteligência norte-americanos se converte numa sentença de morte imediata em águas internacionais».
Estas acções unilaterais dos EUA põem em perigo a estabilidade regional e violam os princípios fundamentais do direito internacional, acusou ainda a embaixadora venezuelana, revelando que várias organizações já as condenaram: foram os casos, entre outras, da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e do Movimento dos Não Alinhados.
Depois dos retrocessos provocados pelas sanções unilaterais impostas pelos EUA, já se faz sentir a recuperação económica da Venezuela graças à acção do governo bolivariano, revelou, denunciando a ocultação desta realidade pelos meios de comunicação internacionais. Da parte das forças progressistas do país veio a reafirmação da «nossa firme disposição para continuar a trabalhar pelo bem-estar da humanidade e pelo respeito pela autodeterminação dos povos».
Solidariedade recíproca
Jose Saborido Loidi agradeceu a solidariedade à Revolução e ao povo cubanos sempre demonstrada pelas organizações ali representadas (da assistência, haveria depois quem devolvesse o agradecimento: é Cuba que todos os dias nos dá lições de solidariedade e humanismo e é ela que merece o nosso “obrigado!”).
Para o embaixador, Cuba socialista sempre foi solidária com os povos do mundo que lutam pela sua libertação das amarras do colonialismo e do imperialismo. A este propósito, lembrou a passagem de meio século sobre o desencadear da “Operação Carlota”, em apoio às Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, então recém-independente, travando a agressão combinada da África do Sul racista e das forças da UNITA. Essa acção, garantiu, representou «o princípio do fim do regime do apartheid».
Comentando a situação actual da América Latina, o diplomata denunciou a política norte-americana para o subcontinente, caracterizada por bloqueios, extorsão e dominação. E lembrou palavras recentes de Marco Rubio, Secretário de Estado norte-americano, para quem este é o momento indicado para quebrar qualquer oposição que exista a essa política. No caso da Venezuela, garantiu, é evidente o que os EUA pretendem: o controlo dos recursos naturais do país.
Avanços, resistência e ameaças
Pedro Prola valorizou os avanços alcançados no Brasil com o governo de Lula da Silva: o país saiu do “mapa da fome” da ONU, regista a mais baixa taxa de desemprego da sua história e a economia continua a crescer. Em Outubro, o PT e outros partidos progressistas conseguiram aprovar a isenção total do imposto sobre rendimentos às camadas mais baixas da população. O chumbo, pela direita e extrema-direita, do projecto que visava a taxação dos mais ricos demonstra como «uma parcela expressiva do Congresso Nacional actua contra os interesses da maioria do povo brasileiro e do país», acusou.
Da parte do seu partido, garantiu Pedro Prola, prosseguirá a acção para que a política seguida «sirva a maioria do povo e não pequenos grupos privilegiados». No imediato, o PT insistirá em medidas como a redução da jornada de trabalho, o fim da semana de seis dias, a gratuitidade dos transportes públicos, o reforço dos programas de Educação e Saúde públicas ou a redução das taxas de juro.
Reconhecendo as «intensas disputas e contradições» que o Brasil enfrenta no seu processo de desenvolvimento, o activista brasileiro residente em Portugal valorizou a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos seus cúmplices por «crimes contra a democracia». Trata-se, garantiu, de uma «vitória histórica».
Resistência face à dominação
João Terreiro, da AAPC, reafirmou uma declaração de princípio, particularmente útil nos dias de hoje: «a América Latina e as Caraíbas não são o quintal de ninguém, são terras e povos que conquistaram a sua liberdade e que continuam, com coragem, a defendê-las frente às velhas e novas formas de dominação imperial.»
Valorizando a solidariedade internacionalista sempre praticada por Cuba, João Terreiro recordou a recente passagem pelo país do furacão Melissa, que devastou parte do território cubano e agravou carências provocadas por mais de seis décadas de bloqueio. A resposta do povo cubano foi a de sempre: solidariedade, organização e coragem revolucionária».
Pelo CPPC, Isabel Camarinha afirmou que os «brutais efeitos económicos e sociais do cerco económico dos EUA desmentem qualquer pretensa preocupação com os povos, que são os principais afectados pelas carências provocadas pelos bloqueios». Repúdio foi o termo que utilizou para se referir aos «graves actos de provocação e as sérias ameaças levadas a cabo pela administração dos EUA (…) contra a República Bolivariana da Venezuela, a República da Colômbia e outros Estados da América Latina e Caraíbas».
O CPPC, garantiu, continuará activamente solidário.




