Elogio do Riso, um espectáculo de Hajo Schüler, Maria Rueff e Rodrigo Francisco

Domingos Lobo

A personagem de Rueff é a de um ser solitário, vivendo nas traseiras de um universo de ficções

“Quanto maior a quantidade de riso que o Homem conseguir dentro da dor, mais ele será um Homem profundo” – Aldo Palazzeschi, em O Contrador

Um cenário majestático dá-nos a ver o que será os bastidores de um teatro, o outro lado do sonho e da fantasia. Apenas, e por breves instantes, esse espaço frio, quase inóspito, é ocupado por um telão que exibe uma paisagem romântica, o lado idílico de um certo teatro burguês que os grandes teóricos do teatro moderno anularam: Morvan Lebesque, Lu Sin, Piscator, Brecht, Grotowski. Mas há nesse telão, como na árvore melancólica e desfolhada, ou no santo perdido num nicho ao cimo de uma parede nua, algo de vital, de humano, como se esse espaço de arrumos dos apetrechos que servem para estruturar a acção de uma peça a haver, ganhassem vida numa simbologia do efémero, do instante irrepetível que o teatro encena, se autonomizassem como acontece com o imenso trono a precisar de calço. Ou da magia que a árvore (magnífica execução de Ricardo Reis), alegoricamente representa, quando da urdidura surge a sua copa plena de folhas e de frutos.

É neste cenário, entre o austero e a sugestão do esboço de uma narrativa em construção, que a figura frágil de alguém que cuida desse lugar, surge para ocupar esse espaço, para o habitar e tornar seu. O andar inseguro, as roupas andrajosas do trabalho, a lanterna que percorre nervosa os recantos da grande nave, o cansaço da rotina. E a actriz, ao caso essa talentosíssima actriz que é Maria Rueff, na quase ausência de palavras deste seu fiel de armazém, estivesse ali, a encher o palco, para nos mostrar que na dor, na quase ausência de todos os confortos que o neoliberalismo trombeteia, o riso e as canções aprendidas na infância ainda são possíveis, que algumas palavras bastam, mesmo que atabalhoadas, encontradas ao acaso num dicionário de bolso, alguns gestos, para comunicar com o outro, mesmo que as palavras, dessa voz amestrada, sejam ininteligíveis.

A personagem de Rueff é a de um ser solitário, vivendo nas traseiras de um universo de ficções, longe dos olhares e dos aplausos do público, despertando dessa tarefa solitária e repetitiva com a chegada de «uma “companhia de ingleses”, especialista em Shakespeare, que vem montar o Hamlet a Almada». É um ser que vive as margens do sonho, sem dele fazer parte, alguém empático, de quem se gosta ao primeiro gesto, pela fragilidade, pelo andar dobrado, por pequenas frases ditas, para si, quase em surdina. E logo nos vêm à memória o Charlot de Luzes da Cidade, Tempos Modernos, A Quimera do Ouro, Buster Keaton, ou o olhar melancólico de Totó, ou o drama escondido por detrás da agudíssima voz do bonecreiro da peça O Vagabundo das Mãos de Ouro, de Romeu Correia. Essa dor, dizem-nos Rueff e Rodrigo Francisco, que encontraram no texto O Contador, de Aldo Palazzeschi, que ambos escavaram para descobrir o riso que toda a dor transportará.

Essa dor/riso manifesta-se em várias situações de Elogio do Riso: na forma como o contínuo/porteiro/fiel de armazém dialoga consigo, à falta de interlocutores, ou com as vozes, numa estranha língua, que vêm da régie; na cena da refeição, nesse tugúrio simbolicamente escavado num dos alçapões do palco, em que revemos Charlot; nos apetrechos usados para aparar os pingos de chuva, que se transmudam em instrumentos musicais numa das cenas mais cómicas e conseguidas da peça, na qual melhor reconhecemos a grande actriz de comédia que Rueff é; a subida das escadas, para iluminar a imagem do nicho, a perna que baloiça no vazio é um achado, como o é o deleite como a personagem se espoja no trono de Hamlet, destruindo o seu régio significado.

A cena da tempestade, os trovões, o vento, o ruído da chuva, é uma das cenas de grande impacto, aqui, graças à tecnologia e à apropriação que dela fez Daniele Mendrico. Os papéis que o vento espalha pelo palco serão do Hamlet, ou das que este espectáculo poupou, substituindo-as pelo corpo e pelos gestos da actriz?

Com Rueff, uma Rueff pamplinesca e soberba, rimos de forma inteligente, estivemos envolvidos, durante uma hora, suspendendo tudo o que nos magoa, nesse mágico absurdo feliz e poético que o teatro é, quando feito por profissionais cultos e sensíveis.

 



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