Romper o cerco

Manuel Augusto Araújo

A americanização da cultura acabou por abranger todos os sectores

Buñuel, pouco depois de chegar aos EUA, confrontando-se directamente com a cultura norte-americana e o sistema de produção cinematográfico, concluiu o que já tinha intuído: que «um país para impor a sua cultura tinha que ter canhões e moeda forte». A II Grande Guerra Mundial ainda estava para durar. O seu principal ganhador foi o Exército Vermelho, mas o grande beneficiário foram os EUA. Entrando tardia e calculadamente na guerra, imporiam no pós-guerra os tratados de Breton-Woods, que subverteriam de forma unilateral, acabando com a convertibilidade do dólar em ouro: o dólar tornou-se a moeda fiduciária, a moeda dominante, hoje em derrapagem.

No pós-guerra, à Europa exaurida os EUA impõem o Plano Marshall1. O que tem isto a ver com a cultura? Tem tudo!!! Sem nos deter nas teias da Guerra Fria Cultural2, nas íntimas relações entre o dinheiro e a cultura, em particular as actividades das indústrias culturais e criativas, em que os seus produtos culturais se fazem em linhas tayloristas em que praticamente deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica. Anote-se que no Plano Marshall os empréstimos e doações eram regulados por rígidos protocolos que, na vertente cultural, exigiam que muitos dos milhões de dólares fossem aplicados na exibição de filmes produzidos por Hollywood, o que impulsionava a indústria cinematográfica norte-americana, mas sobretudo promovia o modo de vida e a cultura dos EUA, combatia os partidos de esquerda.

Em poucos anos são dezenas de milhares de filmes hollywoodescos exibidos na Europa ocidental, o que, conjugado com outras acções nas áreas das letras, das artes, das ciências humanas, teve por consequência a actual colonização cultural. Uma americanização que acaba por abranger todos os sectores, dos anglicismos que invadem a linguagem quotidiana, a predominância nas séries cinematográficas e televisivas, nas simplificações das redes sociais, dos cultos dos pseudo-rebeldes que se integram nas sociedades para as maquilhar, subvertendo quaisquer perspectivas revolucionárias, até no estilo das vestimentas e, na melhor das situações, no politicamente correcto das lutas fracturantes em que se tem por objectivo, ainda que dissimulado, asfixiar as lutas de classes.

É a vulgaridade da vida contemporânea, os eventos culturais e artísticos visitados nos tempos livres das idas ao ginásio, das refeições dietéticas, cervejas sem álcool, cafés sem cafeína, doces sem açúcares, as excitações das casas dos segredos e big brothers, tudo ao abrigo dos perigos que poderiam contaminar vidas detergentadas, horizontal e obliquamente americanizadas. Uma aculturação generalizada, diariamente verificável nos meios académicos, culturais, artísticos, na vida quotidiana em que se oferecem «aos consumidores o que se adapta ao seu gosto – quer dizer do que eles gostam. São alimentados de consumo como gado com qualquer coisa que acaba sempre por se tornar qualquer coisa»3.

Há excepções, as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo que bordelizou a cultura a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade, numa massificação sem democratização nem emancipação.

Há que lutar contra este estado de coisas. Recuperar e refundar uma cultura política, sindical, artística ancorada nos princípios revolucionários que se tem diluído e perdido nos últimos decénios em que, como Lénine referia, se recupere a cultura burguesa, retirando-lhe os elementos alienantes e recuperando todos os valores universais da humanidade que na sociedade contemporânea têm sido sistematicamente rasurados até pelas esquerdas vacilantes que aceitam a abstracção da lei e se submetem à ordem neoliberal capitalista.

1 Para melhor se perceber a tessitura do Plano Marshall leia-se Les Origines du Plan Marshall, Le Mythe de l' Aide Américaine, Annie Lacroix-Riz, Armand Collin, 2013

2Sobre Guerra Fria Cultural, ler Who Paid the Piper? The CIA and the Cultural War, Frances Stonor Saunders, Granta, 2001 e The Cold War and the Making of Modern World, Walter Martin, Fourth State, 1993

3Han, Byung-Chul, A Expulsão do Outro, Relógio d'Água. 2018

 

 



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