Via Verde para manipular
As eleições para Presidente da República aproximam-se, já marcadas para 18 de Janeiro, e com isso uma maior atenção mediática aos candidatos – mas nem todas as candidaturas são iguais aos olhos do aparelho mediático. Ao longo dos últimos meses, quatro candidatos – Marques Mendes, Gouveia e Melo, Seguro e Ventura – foram já entrevistados na SIC e na TVI (canal generalista, em sinal aberto) e um outro, Cotrim de Figueiredo, na TVI. Já não se trata do habitual, ainda que vergonhoso, tratamento diferenciado entre candidaturas de primeira e de segunda, mas no silenciamento das últimas em contraste com uma descarada promoção das primeiras.
António Filipe não só não teve, à data, entrevista em qualquer dos canais generalistas privados, como ao longo dos quatro meses desde o anúncio da sua candidatura teve as portas dos canais informativos no cabo fechadas. Quatro meses de intensa promoção televisiva dos verdadeiros candidatos do sistema – do Pacote Laboral, do desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, dos comboios sobrelotados, das borlas fiscais para os grupos económicos – que contrastam com a ausência de quem o denuncia, do único candidato que assume como programa a concretização dos direitos constitucionais que fazem a diferença na vida de cada um.
Para lá da presença dos próprios, multiplicam-se as entrevistas de apoiantes das tais candidaturas, que somam à presença mediática hegemónica de comentadores ligados às mesmas. Nada de estranhar quando se olha para o alinhamento dos órgãos de comunicação social dominantes, de quem os controla e os detém, com a agenda que inferniza o dia-a-dia de quem cá vive e trabalha – recorde-se que o dono da TVI é um dos mais activos promotores de Gouveia e Melo, que a candidatura de Seguro foi preparada e anunciada através do espaço de comentário disponibilizado pela CNN Portugal, que Marques Mendes recebeu o apoio do recentemente falecido proprietário da SIC, estação que lhe forneceu antena semanal ao longo da última década no mais nobre dos horários nobres televisivos, ou que Ventura aproveitou a via verde que as televisões privadas lhe disponibilizaram para dezenas de entrevistas nos últimos meses.
O cuidado dispensado à manipulação não se fica pelas televisões: veja-se como exemplo um episódio recente protagonizado pelo jornal Público. Em entrevista, o líder parlamentar do PS e apoiante de Seguro aproveitou para visar directamente António Filipe e o PCP, apelando à sua desistência a favor do seu candidato, afirmação que foi levada pelo jornal à sua primeira página. Na edição do dia seguinte, quando seria de esperar que surgissem declarações do candidato visado, o Público optou por dar notícia da resposta de… Jorge Pinto, candidato do Livre. Ou ainda a peça da revista Sábado sobre «as finanças dos candidatos», onde se lê, sem mais, que «não foi possível consultar em tempo útil a declaração» de rendimentos de António Filipe.
As eleições serão a 18 de Janeiro, a revista saiu a 29 de Outubro: fica claro que este tempo mediático é útil para muito trabalho em torno das presidenciais, desde que não envolva António Filipe.




