Questões de Cultura
Desde sempre há uma cultura de esquerda e uma cultura de direita, tanto nas formas de produção como nas de recepção.
Cultura, em qualquer idioma, é uma palavra polissémica significando uma entidade que também é uma actividade. Originalmente descrevia um processo material de trabalho actuando directamente sobre a natureza espontânea para a conformar às suas necessidades, promovendo uma nova disciplina, a agricultura, que desenhou e implantou novos agregados populacionais, uma vida colectiva onde a cultura, metaforicamente, foi progressivamente transposta para os assuntos ditos do espírito. As sementeiras e os seus frutos passaram a ser materiais e imateriais.
Com a hierarquização do trabalho, paradoxalmente, os que trabalhavam a terra e outros trabalhos manuais começaram, por falta de tempo para se cultivarem espiritualmente, a serem considerados incultos, enquanto os que produziam cultura elaboravam-na enquanto progresso da humanidade, mas também como ferramenta que marca distâncias e distinções, fundamentais na construção dos poderes simbólicos, centrais para se perceber o controlo das classes dominantes.
A cultura é a soma dinâmica e activa das sabedorias, dos conhecimentos do fazer, das práticas colectivas de grupos e indivíduos, para lá do círculo restritivo da criação artística, das artes e das letras onde, na ideologia burguesa, a criatividade se expandiria, expurgada do ruído trivial do trabalho e de outras actividades quotidianas. É esta concepção de cultura que a ideologia burguesa quer impor desde a ideia pré-moderna de obra que se inicia no Renascimento, prolonga-se e aprofunda-se no Iluminismo, com intensos debates entre movimentos artísticos em reacção aos centros de produção das artes, as academias e os museus. O paradoxo desses movimentos artísticos é que sem os museus, enquanto centros da história de arte, em que todos os movimentos artísticos têm lugar e aí devem estar representados, mostrando os seus progressos, perderiam visibilidade.
Estas teses tornam impossível, para os marxistas, verem a cultura como um território neutro onde os bons espíritos se poderiam encontrar para discutirem questões estéticas e artísticas expurgadas de serem de direita ou de esquerda, o que alegremente acabaria por contaminar todos os debates, todas as lutas, o que foi desde sempre o objectivo das ideologias burguesas – tornar obsoletas as distinções entre esquerda e direita, anular as lutas de classe fragmentando-as em lutas de identidades e de género, degradar as forças de classe, sindicatos e partidos. Há que afirmar e reafirmar que desde sempre há, de forma directa ou oblíqua, uma cultura de esquerda e uma cultura de direita, tanto nas formas de produção como nas de recepção.
O relativismo cultural acentuou-se na modernidade, principalmente quando o Estado se separou da cultura, abandonando políticas culturais privando-as da importância política, da significância pública, assumindo na melhor das hipóteses uma intervenção assistencialista, relegando para a esfera privada praticamente toda a actividade de criação e consumo culturais. A liberdade de criação artística que uma pretensa neutralidade política cultural providenciava, foi capturada praticamente na totalidade pelo mercado, que não conhece outra hierarquia cultural que não seja a do que é vendável.
Na actualidade, o processo cultural é uma operação económica em que a novidade, o novo, a dimensão utópica da arte enraíza-se no mercado, uma variante pervertida das estratégias comerciais.
A confluência destes factores provoca um relativismo cultural tanto para produtores como para consumidores, num sistema de vasos comunicantes entre produção e distribuição. Uma poderosa teia de aranha que, segundo Raymond Williams, só poderá ser ultrapassada por «um plano socialista para as artes e os media rejeitando o controlo estatal do conteúdo, por um lado, e a soberania do lucro, por outro. Como alternativa, os participantes activos nessa área teriam o controlo dos seus próprios meios de expressão e comunicação. As estruturas físicas das artes e dos media, estações de rádio e televisão, salas de concertos, teatros, redacção de imprensa e redes sociais, etc., passariam a ser propriedade pública (da qual existem diversos tipos) e a sua gestão confiada a organismos democraticamente eleitos».
Tese de valorização da cultura, em toda a sua linha da criatividade da produção à democratização do seu valor de uso, que nesta fase só pode ser alcançada com uma política que implemente um verdadeiro Serviço Nacional de Cultura como definido no 2.º Encontro Nacional de Cultura realizado pelo PCP, «uma estrutura promotora de uma política cultural do Estado, de carácter nacional e profundamente democratizadora, integrando, promovendo e apoiando as forças, iniciativas e meios existentes no território e provendo outros em falta», integrando-o na luta mais geral e complexa por uma sociedade em que se mude a vida, promovendo uma produção intelectual, artística e mediática comprometida com a voz dos vencidos, dos desde sempre oprimidos, como Walter Benjamin expôs nas suas Teses sobre o Conceito de História, para que se dê o salto de tigre arrancando a história do conformismo imobilista.




