Palestina e resistência

Jorge Cadima

Não há que abrandar a solidariedade, mas reforçá-la

Não é exagero dizer que esta Festa do Avante foi, entre muitas outras coisas, uma das maiores expressões solidárias de massas com o povo palestiniano em Portugal. Foram os múltiplos momentos da programação – incluindo o forte Momento de Solidariedade no sábado. Foram os milhares de lenços, bandeiras, camisolas e símbolos dos visitantes da Festa. Foi a reacção da vasta assistência ao comício sempre que era referida a Palestina.

A causa palestiniana é sentida no nosso País. É natural que assim seja, perante a barbárie assassina de Israel. Mas também devido à resistência – heróica e duríssima – do povo palestiniano, sem a qual Israel já teria há muito concretizado os seus planos de ocupação e expulsão total. É também resultado de décadas de intensa actividade em Portugal do movimento sindical, da paz e da solidariedade, da juventude, do nosso Partido, com particular expressão nos últimos dois anos.

O genocídio na Palestina é um dos grandes crimes do nosso tempo. É duma barbaridade comparável aos crimes do nazi-fascismo. Mas não se trata apenas dum crime israelita. É um genocídio do imperialismo no seu todo. Se o regime sionista é o seu agente directo, o genocídio – e a sua impunidade – só são possíveis graças ao apoio das grandes potências imperialistas, um apoio militar, financeiro e político, aberto e encapotado. Dos EUA, mas também da UE e de Inglaterra.

A questão ultrapassa a Palestina. Estamos perante a tentativa das potências imperialistas de recolonizar todo o Médio Oriente, para controlar os seus gigantescos recursos. O imperialismo quer destruir a resistência a essa recolonização. Daí as três décadas de guerras contra os Estados da região com raízes na luta anticolonial e anti-imperialista. Daí o genocídio do povo palestiniano e a ocupação por Israel de vastas áreas da Síria e Líbano. Daí os ataques conjuntos ao Iémen e ao Irão. Daí a repressão da solidariedade com a Palestina. O sionismo é um dos instrumentos desta ofensiva imperialista. Mas há outros, como os bandos terroristas fundamentalistas colocados no poder em países outrora laicos, como a Síria, pelas mesmas potências imperialistas que sustentam Israel. A contradição é apenas aparente.

Há quem, acreditando na propaganda da UE sobre ‘valores’ e ‘modelo social’ – que não foram criados pela UE e que esta está empenhada em destruir – tenha ficado sinceramente surpreendido com estes dois anos de conivência das grandes potências europeias com a barbárie israelita. Muitos não nos compreendiam quando falávamos do imperialismo e da sua natureza, que não desapareceu e não mudou. Nem compreendiam a nossa oposição aos ataques à Síria, à Líbia, ao Irão e tantos outros. Mas a História fala por si. O genocídio acompanhou sempre as classes dominantes europeias na colonização, no imperialismo, no nazi-fascismo. Sentindo-se libertos de constrangimentos dum passado recente, e procurando contrariar o seu evidente declínio, têm estado a retomar a sua História de guerra e dominação imperialista. Também por isso o grande capital promove (incluindo nos vértices da UE) as forças de extrema-direita e fascistas.

A luta dos povos será decisiva. Os povos do Médio Oriente estão na primeira linha dos ataques do imperialismo. Apoiar a sua resistência é também apoiar a nossa própria luta. O nosso inimigo é o mesmo. Não há que abrandar a solidariedade, mas reforçá-la.



Mais artigos de: Opinião

A pressa

O Governo está com pressa. O caderno de encargos é extenso e a conjuntura parlamentar favorável: entre IL e Chega, que se esforçam por ajudá-lo a parecer “moderado”, e o PS que já se cansou de tentar sequer aparentar qualquer inclinação “à esquerda”, o executivo PSD/CDS mostra ao que vem. Depois de mexer nas leis da...