Auditório 1.º de Maio

Diversidade e liberdade


O Auditório 1.º de Maio tornou-se num vibrante mosaico de culturas e sons, reunindo artistas de vários cantos do mundo numa celebração da liberdade, solidariedade e do espírito de Abril. Durante três dias, a música, a dança e as vozes de públicos e intérpretes entrelaçaram-se numa Festa de emoção, resistência e diversidade cultural. A solidariedade com a Palestina e o seu povo esteve presente em todos os momentos.

Na sexta-feira, D!FER abriu o palco com «O título», seu primeiro álbum, uma fusão de ritmos urbanos, do rap ao hip-hop e R&B. Logo de seguida, o ambiente transformou-se com a actuação do grupo da Região Autónoma de Ningxia Hui, da China. Vestidos com trajes tradicionais e acompanhados de instrumentos típicos, os artistas apresentaram melodias que reflectem a sua rica herança cultural. Entre os momentos mais marcantes estiveram a elegante dança da «Fénix», o espectáculo visual e musical «Encanto da Rota da Seda», impressionantes acrobacias e a canção folclórica «Flor de Jasmim». A apresentação incluiu também uma envolvente demonstração de Jujitsu.

O cruzamento de ritmos da BDJoy & Zimbora Band aqueceu o espaço logo aos primeiros acordes, pondo todos a dançar. Já Selma Uamusse e convidados uniu múltiplas línguas e as numerosas vozes do público, numa celebração das independências das ex-colónias [como ali voltou a aconteceu e em outros locais].

Sábado

O sábado começou com os Crying Uncle Bluegrass Band, um quarteto de cordas dos EUA, cujo diálogo virtuoso levou o público por viagens sonoras que interligam bluegrass, jazz e Dawg. Seguiu-se Diego el Gavi, que, acompanhado por músicos maravilhosos, proporcionou um espectáculo emocionante de celebração da vida, onde o flamenco se misturou com sons latino-americanos.

Rita Vian apresentou [no palco onde disse já ter ouvido alguns dos melhores concertos da sua vida] «Sensoreal», o seu primeiro álbum, uma nova linguagem musical que combina fado, electrónica e experimentação vocal. Um dos pontos altos foi «Podes ficar», cantada em uníssono por todos os presentes, e «Água», uma metáfora que simboliza liberdade e renovação.

André Rosinha Trio trouxe a sofisticação e liberdade criativa do jazz, enquanto Mariana Aydar, cantora e compositora brasileira, activista feminista e lutadora contra as violências, cruzou sonoridades da MPB, do samba e do forró, que reinventou. «Estou muito feliz por estar aqui», confessou ao público. Temas como «Te faço um cafuné», «Beleza», «Taxi lunar» e «Gostoso demais» – esta última uma sentida homenagem a Dominguinhos – levaram ao rubro uma legião de fãs que cantou e dançou do início ao fim.

Depois, a guitarra inconfundível de Tó Trips, com os Fake Latinos, transportou-nos para recantos de Lisboa ainda não soterrados pela gentrificação e pelo turismo de massas.

Seguidamente, a poderosa voz de Gisela João fez pequeno o espaço do Auditório, numa evocação musical de Abril. A multidão que se expandiu pelas laterais esteve, de início ao fim, presa nas palavras da artista que, ora cantando ora partilhando reflexões e interpretações dos poemas e cantigas escolhidas, conseguiu criar um ambiente profundamente emotivo, celebrando a Revolução dos Cravos.
Com a lua e o ambiente em fase crescente, Mário Lúcio & Pan African Band celebrou os 50 anos da independência de Cabo Verde, trazendo ao palco uma poderosa mensagem de memória e emancipação. «Obrigado pelo vosso calor. Sinto-me em casa», confessou o cantor, que fez uma referência a Bento Gonçalves, antigo Secretário-Geral do PCP, assassinado pelo regime fascista no Campo de Concentração do Tarrafal, destacando o simbolismo da luta pela liberdade e justiça. O tema «Ilha de Santiago» foi marcante.

A noite encerrou com a rave solidária com a Palestina, com Chima Issaro, Didi, Gotopo e Violet, num momento de resistência e solidariedade internacionalista. Memorável!

Domingo

O último dia arrancou com os acordes energéticos do quarteto de rock Passo Real. Seguiu-se Bernardo Moreira Sexteto que criou um ambiente singular com variações de temas de Carlos Paredes, dialogando o jazz com a tradição da guitarra portuguesa de Coimbra. Os ritmos afro-uruguaios de Yacumenza Candombe Banda puxaram pela dança na plateia.

Depois do comício, o fadista Sérgio Onze, de cravo ao peito, emocionou o público com interpretações sentidas, como aconteceu com «Fado menor» e «A noite». A programação encerrou com Joana Amendoeira, que apresentou canções de liberdade, evocando a luta contra as ditaduras, escritas por poetas como David Mourão Ferreira, Artur Ribeiro, Natália Correia. À fadista juntou-se o brasileiro Fred Martins, com o seu violão, para cantarem, entre outros temas, «Vejam bem», de Zeca Afonso, e «Senzala», um alerta para a escravatura, que persiste em formas modernas. Foi uma última nota de afirmação colectiva, onde o fado, o rock, o jazz, a música brasileira e os ritmos africanos e latino-americanos, entre outros estilos, se cruzaram num hino à liberdade, à memória e à sonoridade internacional.

 

Galeria:



Mais artigos de: Festa do Avante!

Fazer da alegria força para lutar

No comício da Festa, o Secretário-Geral do PCP referiu-se às curvas apertadas e à determinação de que mesmo nesses momentos (ou mais ainda neles) os comunistas e seus aliados dão provas. Ora, vivemos um desses períodos e a Festa não passou ao lado dele – nas múltiplas referências às ameaças à...

Coragem e alegria para transformar

Coragem e alegria foram duas das características enunciadas por Paulo Raimundo, no comício da Festa do Avante!, para resumir o Partido que ali estava reunido: coragem para resistir e lutar, por mais apertada que seja – como é – a curva da História, e aquela alegria «só possível por quem sabe que é belo o ideal e é justa...

É necessário e possível resistir, tomar a iniciativa e avançar

Viva a Festa do Avante! Viva a Festa dos valores de Abril, festa dos trabalhadores, do povo e da juventude; espaço de liberdade, democracia, cultura. (…) Viva também o Avante!, órgão central do PCP, o jornal que dá nome à Festa. Daqui se reafirma o seu papel ímpar e a importância da sua...

Por um mundo livre de todas as formas de discriminação e opressão

Viva a Festa do Avante! Festa da esperança, da juventude, da amizade e da camaradagem. Da cultura, da arte e do desporto. Do trabalho, da resistência e da luta. Festa Internacionalista e da Paz. Festa da vida, da alegria e do futuro que queremos que seja presente. Eis a nossa Festa! (…) Daqui...

Analisar a realidade para a transformar

Perante uma realidade que muda de dia para dia, a análise da situação política ganha, em cada Festa, novos contornos. O Espaço Central foi, por isso, novamente, palco de profícuos debates sobre diferentes temáticas, que juntaram, entre as noites de sexta-feira e domingo, centenas e centenas de...

A luta pode derrotar o pacote laboral

Em vários debates houve referências ao pacote de alterações à legislação laboral, com apelo à participação na jornada nacional de luta que a CGTP-IN promove no próximo dia 20, com manifestações em Lisboa e no Porto. O foco no tema foi colocado no debate Unidade e luta – Pelos salários e direitos, enfrentar e derrotar o...

Inteligência artificial na guerra

No sábado, o Fórum acolheu, ao final da manhã, o debate Os impactos da inteligência artificial na guerra. Que novas formas e ameaças? Que desafios à luta pela paz?, com os membros do CC do PCP, João Pimenta Lopes (que moderou), Bruno Dias e Rogério Reis (docente universitário na FCUP), e ainda Maria João Rendas...

Acção na informação

A imposição da ideologia dominante às massas, seja através de órgãos de comunicação social que reproduzem os valores do capitalismo e do imperialismo, seja por via de algoritmos, foi o tema central de que se falou, domingo à noite, no Auditório. No debate Comunicação Social e Redes Digitais – Vivemos mesmo na sociedade...

É ponto a ponto que se resiste e ganha o futuro

Na confecção, divulgação e promoção do Tapete de Arraiolos resiste-se ganha-se o futuro ponto a ponto. Esta foi uma das ideias fortes da exposição e demais actividades patentes no Espaço Central da Festa do Avante!. Na mostra, no debate que decorreu ao final da manhã de domingo e nas quatro...

Constituição e direitos são para cumprir

A necessidade de um grande envolvimento colectivo na exigência do cumprimento da lei fundamental foi realçada por Rui Fernandes, da Comissão Política do Comité Central do PCP, no final do debate, que moderou, Cumprir a Constituição – Afirmar direitos. No Fórum, domingo, à tarde, sobre este...

Desporto é cultura e desenvolvimento

Os espaços do desporto na Festa foram, durante os três dias, arenas, estádios, pavilhões e até quintais. Nestes momentos, afirmaram-se duas ideias centrais: não existirá uma sociedade diferente sem que a prática desportiva, nas suas componente física, mental e social, seja pedra para a sua...

Manter a Ciência no rumo de Abril

Será que este texto foi construído com ajuda da Inteligência Artificial (IA)? Este é o repto, em jeito de advinha, lançado aos leitores depois do “contágio” na acção “Inteligência Emocional – conversas que desafiam a IA”, realizado no Espaço Ciência. Os participantes foram convidados a...

«Mamã, falta muito para a próxima Festa?»

À chegada ouve-se nos altifalantes: «Camaradas e amigos, está aberta a 49.ª Festa do Avante!”, sente-se o fervilhar de uma imensa alegria, os sorrisos em cada rosto por quem passamos e, apesar de sabermos que vamos ter uma boa festa, recebemos com grande felicidade e entusiasmo os votos de uma...

Música que encanta e mobiliza

Parece mentira para os mais distraídos e, ao mesmo tempo, um bom augúrio para quem acreditar, mas entre as poucas nuvens que sobrevoaram o recinto do Palco 25 de Abril na noite de domingo a Lua brilhou mesmo vermelha. Há, naturalmente, explicação: foi o último eclipse lunar deste ano, mas a coincidência foi demasiado boa...

Concerto sinfónico abre o Palco 25 de Abril libertando

Até na mais negra das noites se pode ousar denunciar pela música. Ousar sonhar com a Liberdade. Ousar esperar pela vitória da Paz. 80 anos nos separam da derrota do nazi-fascismo que pôs fim àquelas noites de censura. Data que foi recordada no já habitual concerto sinfónico de abertura do Palco 25 de Abril da Festa do...

Música contra a guerra entre as raízes e o futuro

O Palco Paz voltou a ser um espaço especial para todos aqueles que encontram na cultura e na tradição, ferramentas indispensáveis para a construção de um mundo sem guerra e uma humanidade plenamente dona do seu destino. Apresentando nomes grandes da música portuguesa, mas também dando expressão...

A importância de andar espantado de existir

Festa do Livro. Palavras, páginas e títulos. Editoras, conversas e debates. Perguntas, respostas, acrescentos, declaração (de interesses e das outras), afirmação e a coragem que só nos vem com o medo. Compromisso. Lénine. Cidades costuradas e cidades periféricas, urbanismos, economias...

“Nas nossas mãos o mundo novo”

A frase que dá título a este texto é o lema do 13.º Congresso da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), que se realiza em Novembro, e foi também o mote da Cidade da Juventude. E não podia ter sido mais bem escolhido. Ali, os jovens tomam nas suas mãos aquela cidade de três dias, ao longo dos...

Arte transformadora e de emancipação, individual e colectiva

Ao som dos passos que marcam a Grândola, Vila Morena a peça Mercado das Madrugadas de Patrícia Portela, uma co-produção PRADO e Rota Clandestina, Teatro Aveirense e Teatro Nacional Dona Maria II, aconteceu numa praça criada junto ao palco do Avanteatro. Grande participação, músicas da tradição...

Consciência social no Cinema ao ar livre

O CineAvante apresentou sessões ao ar livre que realçaram problemas laborais, lutas organizadas, a precariedade e o papel do cinema na construção de um mundo mais justo. On Falling (2024), de Laura Carreira, abriu a programação na sexta-feira. Filma a rotina precária e a exploração quotidiana...

Um país de lutas, saberes e sabores

Quantos quilómetros quadrados cabem em cada hectare? Se formos pela matemática, apenas 100, mas como as regras parecem mudar na “terra dos sonhos”, podemos afirmar com certeza que, nos 30 hectares da Quinta da Atalaia, couberam todos os 90 mil km2 de Portugal. Isto porque, do Minho ao Algarve, sem esquecer as ilhas,...

A luta por melhores condições para quem está fora

«Pelos caminhos do mundo», lia-se logo à entrada do Pavilhão da Emigração, onde havia uma escultura simbolizando a partida de tantos homens e mulheres à procura de melhores salários e condições de vida que não encontram no seu país. «Em todos os órgãos nacionais e europeus onde está...

50 anos de independência das colónias portuguesas em África

«O legado dos movimentos de libertação para a luta anti-racista e dos imigrantes» esteve em debate no Pavilhão da Imigração, no sábado, de manhã. Nele participaram José Augusto Esteves, da Comissão Central de Controlo do PCP, Seyne Torres, do Comité Central do PCP, Ariana Furtado, professora e...

Iguais na luta de classes

Espaço privilegiado pela localização cimeira numa das entradas da Festa e pela ampla sombra contígua à estrutura de ferro, madeira e toldos, o Pavilhão da Mulher foi uma convocatória a derrubar as práticas e os conceitos que o capitalismo perpetua para diferençar e separar homens e mulheres....

A volta ao mundo da solidariedade internacionalista

Debates, lançamento de livros, filmes, DJ sets, oficinas, momentos de solidariedade, exposições. Dos partidos comunistas e forças progressistas, passando pela China ou Vietname, aos movimentos de libertação em África, aos movimentos pela paz e solidários com a Palestina, Cuba, Venezuela, o...

Palestina vencerá!

Na Festa, no sábado à tarde, à entrada do Espaço Internacional, realizou-se um impressionante momento de solidariedade com a Palestina. Perante a multidão, que empunhava inúmeras bandeiras palestinianas e não se cansava de gritar «Palestina vencerá!», interveio Ângelo Alves, da Comissão...

Delegações internacionais

A presença de cerca de 50 delegações internacionais, dezenas das quais representadas com pavilhão na Festa do Avante! constituiu um momento de solidariedade mútua entre partidos comunistas e outras forças progressistas e forças que se batem por um mundo mais justo. As delegações presentes...

Notícias das lutas dos povos

A 49.ª Festa do Avante! acolheu na sua programação, no Espaço Internacional, debates sobre questões da actualidade, em que participaram representantes do PCP e delegações convidadas, que trouxeram notícia das lutas dos povos de todo mundo. No sábado, 6, o primeiro debate abordou os 50 Anos da...

A Festa também é arte

Na Quinta da Atalaia decorreu também mais uma edição da Bienal de Artes Plásticas da Festa do Avante!, a 24.ª, com a exposição de 127 obras de 104 artistas, seleccionadas pelo júri. Trata-se de uma das mais antigas bienais que se realizam no País, assumindo-se como...

Defender recursos e desenvolver o País

A ideia de que o País é naturalmente pobre foi alvo de duras críticas, em particular no debate Recursos e capacidades nacionais – As opções para o desenvolvimento do País. Bruno Dias, do Comité Central (CC), que moderou, Agostinho Lopes, da Comissão Central de Controlo, e Vasco Cardoso, da Comissão Política do CC,...

Animação por toda a Festa

A animar os visitantes da Festa, ao longo dos três dias, estiveram vários grupos de bombos, todos diferentes, mas com uma mesma contagiante energia: Associação de Bombos Cultura e Lazer de São Sebastião do Barco, Porbatuka, Grupo de Bombos de Nisa e o grupo de...

Agradecimentos

Todas as entidades, públicas e privadas, que contribuíram para a realização da Festa do Avante!: À Confederação Portuguesa da Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, à Associação de Colectividades do Concelho do Seixal e a muitas outras associações, colectividades e clubes desportivos. Ao NFIST – Núcleo de...

Participam nesta edição

Texto: André Marques • António Gavela • António Rodrigues • Carlos Lopes Pereira •Diogo Correia •Domingos Mealha •Gustavo Carneiro • Helena Silva • Hugo Janeiro • Isabel Fernandes • João Chasqueira • João Manso Pinheiro • Miguel Inácio • Miguel Silva • Paulo Carvalho • Pedro Fernandes • Raquel Ribeiro •Rui Henriques...