- Nº 2702 (2025/09/11)
Auditório 1.º de Maio

Diversidade e liberdade

Festa do Avante!


O Auditório 1.º de Maio tornou-se num vibrante mosaico de culturas e sons, reunindo artistas de vários cantos do mundo numa celebração da liberdade, solidariedade e do espírito de Abril. Durante três dias, a música, a dança e as vozes de públicos e intérpretes entrelaçaram-se numa Festa de emoção, resistência e diversidade cultural. A solidariedade com a Palestina e o seu povo esteve presente em todos os momentos.

Na sexta-feira, D!FER abriu o palco com «O título», seu primeiro álbum, uma fusão de ritmos urbanos, do rap ao hip-hop e R&B. Logo de seguida, o ambiente transformou-se com a actuação do grupo da Região Autónoma de Ningxia Hui, da China. Vestidos com trajes tradicionais e acompanhados de instrumentos típicos, os artistas apresentaram melodias que reflectem a sua rica herança cultural. Entre os momentos mais marcantes estiveram a elegante dança da «Fénix», o espectáculo visual e musical «Encanto da Rota da Seda», impressionantes acrobacias e a canção folclórica «Flor de Jasmim». A apresentação incluiu também uma envolvente demonstração de Jujitsu.

O cruzamento de ritmos da BDJoy & Zimbora Band aqueceu o espaço logo aos primeiros acordes, pondo todos a dançar. Já Selma Uamusse e convidados uniu múltiplas línguas e as numerosas vozes do público, numa celebração das independências das ex-colónias [como ali voltou a aconteceu e em outros locais].

Sábado

O sábado começou com os Crying Uncle Bluegrass Band, um quarteto de cordas dos EUA, cujo diálogo virtuoso levou o público por viagens sonoras que interligam bluegrass, jazz e Dawg. Seguiu-se Diego el Gavi, que, acompanhado por músicos maravilhosos, proporcionou um espectáculo emocionante de celebração da vida, onde o flamenco se misturou com sons latino-americanos.

Rita Vian apresentou [no palco onde disse já ter ouvido alguns dos melhores concertos da sua vida] «Sensoreal», o seu primeiro álbum, uma nova linguagem musical que combina fado, electrónica e experimentação vocal. Um dos pontos altos foi «Podes ficar», cantada em uníssono por todos os presentes, e «Água», uma metáfora que simboliza liberdade e renovação.

André Rosinha Trio trouxe a sofisticação e liberdade criativa do jazz, enquanto Mariana Aydar, cantora e compositora brasileira, activista feminista e lutadora contra as violências, cruzou sonoridades da MPB, do samba e do forró, que reinventou. «Estou muito feliz por estar aqui», confessou ao público. Temas como «Te faço um cafuné», «Beleza», «Taxi lunar» e «Gostoso demais» – esta última uma sentida homenagem a Dominguinhos – levaram ao rubro uma legião de fãs que cantou e dançou do início ao fim.

Depois, a guitarra inconfundível de Tó Trips, com os Fake Latinos, transportou-nos para recantos de Lisboa ainda não soterrados pela gentrificação e pelo turismo de massas.

Seguidamente, a poderosa voz de Gisela João fez pequeno o espaço do Auditório, numa evocação musical de Abril. A multidão que se expandiu pelas laterais esteve, de início ao fim, presa nas palavras da artista que, ora cantando ora partilhando reflexões e interpretações dos poemas e cantigas escolhidas, conseguiu criar um ambiente profundamente emotivo, celebrando a Revolução dos Cravos.
Com a lua e o ambiente em fase crescente, Mário Lúcio & Pan African Band celebrou os 50 anos da independência de Cabo Verde, trazendo ao palco uma poderosa mensagem de memória e emancipação. «Obrigado pelo vosso calor. Sinto-me em casa», confessou o cantor, que fez uma referência a Bento Gonçalves, antigo Secretário-Geral do PCP, assassinado pelo regime fascista no Campo de Concentração do Tarrafal, destacando o simbolismo da luta pela liberdade e justiça. O tema «Ilha de Santiago» foi marcante.

A noite encerrou com a rave solidária com a Palestina, com Chima Issaro, Didi, Gotopo e Violet, num momento de resistência e solidariedade internacionalista. Memorável!

Domingo

O último dia arrancou com os acordes energéticos do quarteto de rock Passo Real. Seguiu-se Bernardo Moreira Sexteto que criou um ambiente singular com variações de temas de Carlos Paredes, dialogando o jazz com a tradição da guitarra portuguesa de Coimbra. Os ritmos afro-uruguaios de Yacumenza Candombe Banda puxaram pela dança na plateia.

Depois do comício, o fadista Sérgio Onze, de cravo ao peito, emocionou o público com interpretações sentidas, como aconteceu com «Fado menor» e «A noite». A programação encerrou com Joana Amendoeira, que apresentou canções de liberdade, evocando a luta contra as ditaduras, escritas por poetas como David Mourão Ferreira, Artur Ribeiro, Natália Correia. À fadista juntou-se o brasileiro Fred Martins, com o seu violão, para cantarem, entre outros temas, «Vejam bem», de Zeca Afonso, e «Senzala», um alerta para a escravatura, que persiste em formas modernas. Foi uma última nota de afirmação colectiva, onde o fado, o rock, o jazz, a música brasileira e os ritmos africanos e latino-americanos, entre outros estilos, se cruzaram num hino à liberdade, à memória e à sonoridade internacional.