Manipulações eleitorais
A aproximação de novos actos eleitorais, autárquicas e presidenciais, trazem-nos novos episódios de opções editoriais que resultam na promoção de algumas candidaturas em detrimento de outras. A SIC anunciou na última semana a realização de debates entre os candidatos do PS e do PSD às câmaras municipais de Lisboa e do Porto. Em pleno período eleitoral, a realização destes debates a órgãos autárquicos de natureza colegial, nos quais a CDU tem representação, constitui uma promoção que contraria as obrigações de equilíbrio, não discriminação e pluralismo a que os órgãos de comunicação social estão obrigados, em especial em pleno período eleitoral.
A realização posterior de um debate mais abrangente, como foi anunciado, não bastará para desfazer a opção errada de prejudicar o esclarecimento e a livre e informada definição do sentido de voto para promover apenas duas das candidaturas.
Também as sondagens desempenham um papel central, não no esclarecimento, mas na construção de cenários desejados por quem as encomenda. São já clássicos os casos em que sondagens com resultados que se acabam por revelar muito longe da realidade contribuem para opções de voto que acabam por se revelar de enorme inutilidade.
Recentemente fomos brindados com duas sondagens promovidas pelo grupo Medialivre (Correio da Manhã, Now, Jornal de Negócios) – assumida e crescentemente grupo oficioso do Chega – que fizeram subir a parada no grau de manipulação. Primeiro, uma sondagem sobre presidenciais, cujo trabalho de campo foi realizado já após o anúncio da candidatura de António Filipe, em que este candidato não constava nas opções. Dias depois, numa nova sondagem, desta vez feita para a TVI, os resultados foram apresentados com apenas três candidatos: Gouveia e Melo, Marques Mendes e Seguro.
Sem surpresa, previa uma vitória em qualquer cenário do primeiro, o candidato que tem no dono da estação televisiva um dos seus principais impulsionadores. Mas a surpresa surge mesmo na apresentação dos resultados, em que a opção apresentada como “outro candidato” reúne 21% das intenções de voto. Com uma dimensão tão expressiva, seria de esperar que ainda surgisse um quadro em que se percebesse o resultado previsto para os restantes candidatos, mas tal não sucedeu na peça televisiva.
Já a realização de sondagens autárquicas representa um desafio acrescido para quem procura uma manchete sonante, dada a particularidade de cada um das centenas de concelhos do País. Problema resolvido pelo Correio da Manhã, questionando os inquiridos, não em quem pretendem votar, mas qual o partido que acham que vai ganhar mais câmaras municipais. Assumindo com um elevadíssimo grau de confiança que o universo não foi composto por profundos conhecedores das particularidades autárquicas dos 308 municípios, tal exercício só tem uma razão de ser: permitir o título «Portugueses colocam Chega à frente do PS nas autárquicas» e assim alimentar narrativas fabricadas nos centros de decisão da máquina mediática.




