Washington, capital ocupada
Na segunda-feira, o regime de Trump deu mais um passo em direcção ao fascismo. Atropelando a vontade da administração eleita de Washington DC, o magnata colocou o departamento de polícia metropolitana sob a alçada federal (uma decisão sem precedente histórico) e mobilizou mais de 800 militares da Guarda Nacional para ocupar a capital do país, com ordens para «fazerem o que lhes apetecerem» por um período de tempo indefinido. Estas ordens executivas, acompanhadas de ameaças de mobilizar o exército e de fazer o mesmo noutras cidades, como Nova Iorque ou Chicago, foram justificadas com um suposto aumento dos níveis de criminalidade — que na realidade até vêm diminuindo há dois anos. Stephen Miller, assessor de segurança nacional, foi mais longe e comparou Washington a Bagdade, outra capital bombardeada, invadida e ocupada pelas mesmas forças armadas lançadas agora contra o próprio povo.
Se ignorarmos os contornos sórdidos, que simultaneamente distraem e enojam, que circunscrevem o que está a acontecer, como a decisão de julgar adolescentes como adultos ou a utilização das forças armadas para combater os sem-abrigo da cidade, não encontramos o capricho de um louco, nem a obstinação de egomaníaco. Esta é a única forma possível de escorar política e militarmente o violentíssimo plano de guerra económica e social que o capital reserva a centenas de milhões de trabalhadores estado-unidenses.
Na semana passada, Trump retirou, de uma única assinatura, a contratação colectiva a 370 mil trabalhadores federais da Agência de Assuntos de Veteranos e da Agência de Protecção Ambiental que perdem todos os direitos conquistados e a possibilidade de voltar a assinar um contrato colectivo de trabalho no futuro. Trump não esperou sequer pela caducidade da contratação, limitou-se a rasgá-la. A Casa Branca planeia, nos próximos meses, fazer o mesmo noutras 12 agências, privando um milhão de trabalhadores federais do direito à contratação colectiva. Simultaneamente, quer despedir, a curto prazo, outros 100.000 trabalhadores federais. O Estado federal dá assim um sinal claro a toda a sociedade, encorajando as administrações estaduais e o privado a seguir o exemplo dado e consagrado ao mais alto nível: erradicar a contratação colectiva, esbulhar direitos a quem trabalha, acabar com as funções sociais do Estado, despedir à vontade e transferir rendimentos do trabalho para o capital: eis o Projecto 2025, base programática da campanha de Trump.
O capital sabe que, ao intensificar a luta contra os trabalhadores de forma tão brusca e violenta, é inevitável colher um tremor-de-terra social. Milhões de trabalhadores estado-unidenses estão a ser condenados à miséria pela via da perda dos apoios sociais com que contavam, do desemprego ou de cortes salariais. Não é possível dar um salto qualitativo e quantitativo tão grande sem esperar uma reacção que deve ser contida preventivamente. A «democracia» do capital volta-se assim para dentro com todo o arsenal do império em decadência para ocupar as próprias cidades e oprimir o próprio povo.




