Washington, capital ocupada

António Santos

Na segunda-feira, o regime de Trump deu mais um passo em direcção ao fascismo. Atropelando a vontade da administração eleita de Washington DC, o magnata colocou o departamento de polícia metropolitana sob a alçada federal (uma decisão sem precedente histórico) e mobilizou mais de 800 militares da Guarda Nacional para ocupar a capital do país, com ordens para «fazerem o que lhes apetecerem» por um período de tempo indefinido. Estas ordens executivas, acompanhadas de ameaças de mobilizar o exército e de fazer o mesmo noutras cidades, como Nova Iorque ou Chicago, foram justificadas com um suposto aumento dos níveis de criminalidade — que na realidade até vêm diminuindo há dois anos. Stephen Miller, assessor de segurança nacional, foi mais longe e comparou Washington a Bagdade, outra capital bombardeada, invadida e ocupada pelas mesmas forças armadas lançadas agora contra o próprio povo.

Se ignorarmos os contornos sórdidos, que simultaneamente distraem e enojam, que circunscrevem o que está a acontecer, como a decisão de julgar adolescentes como adultos ou a utilização das forças armadas para combater os sem-abrigo da cidade, não encontramos o capricho de um louco, nem a obstinação de egomaníaco. Esta é a única forma possível de escorar política e militarmente o violentíssimo plano de guerra económica e social que o capital reserva a centenas de milhões de trabalhadores estado-unidenses.

Na semana passada, Trump retirou, de uma única assinatura, a contratação colectiva a 370 mil trabalhadores federais da Agência de Assuntos de Veteranos e da Agência de Protecção Ambiental que perdem todos os direitos conquistados e a possibilidade de voltar a assinar um contrato colectivo de trabalho no futuro. Trump não esperou sequer pela caducidade da contratação, limitou-se a rasgá-la. A Casa Branca planeia, nos próximos meses, fazer o mesmo noutras 12 agências, privando um milhão de trabalhadores federais do direito à contratação colectiva. Simultaneamente, quer despedir, a curto prazo, outros 100.000 trabalhadores federais. O Estado federal dá assim um sinal claro a toda a sociedade, encorajando as administrações estaduais e o privado a seguir o exemplo dado e consagrado ao mais alto nível: erradicar a contratação colectiva, esbulhar direitos a quem trabalha, acabar com as funções sociais do Estado, despedir à vontade e transferir rendimentos do trabalho para o capital: eis o Projecto 2025, base programática da campanha de Trump.

O capital sabe que, ao intensificar a luta contra os trabalhadores de forma tão brusca e violenta, é inevitável colher um tremor-de-terra social. Milhões de trabalhadores estado-unidenses estão a ser condenados à miséria pela via da perda dos apoios sociais com que contavam, do desemprego ou de cortes salariais. Não é possível dar um salto qualitativo e quantitativo tão grande sem esperar uma reacção que deve ser contida preventivamente. A «democracia» do capital volta-se assim para dentro com todo o arsenal do império em decadência para ocupar as próprias cidades e oprimir o próprio povo.

 



Mais artigos de: Internacional

Na Faixa de Gaza aumenta o número de mortes pela fome

Na Faixa de Gaza ocupada e cercada, ao mesmo tempo que os bombardeamentos das forças israelitas provocam todos os dias dezenas de vítimas, aumenta o número de mortes provocadas pela fome, em resultado do criminoso e cruel bloqueio imposto por Israel.

Trabalhadores da Boeing em greve

Nos EUA, mais de 3.200 trabalhadores da Boeing, que fabricam caças a jacto em três fábricas no Missouri e em Illinois, entraram em greve no dia 4.

Brasil e Índia afirmam a sua soberania face à chantagem dos EUA

As taxas alfandegárias impostas pelos EUA sobre produtos do Brasil, que entraram em vigor no dia 6, constituem um acto de ingerência neste país latino-americano, que procura, entre outros aspectos, condicionar as relações internacionais do Brasil, nomeadamente no âmbito do BRICS, assim como a acção das instituições...

Acordo entre EUA e UE - primeiros impactos na economia alemã

A pretexto das novas taxas aduaneiras impostas pelos Estados Unidos da América e aceites pela União Europeia, no recente acordo celebrado entre os EUA e a UE, o grupo alemão Volkswagen anunciou o corte de 33 mil postos de trabalho até 2030, incluindo 1900 na sua filial Porsche. A companhia Mercedes-Benz também avalia...