Descobriram agora?

João Frazão

«Portugal é um País soberano e, portanto, a sua política não é decidida pelos outros Estados», diz Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, em declaração solene aos órgãos de comunicação social.

Apanhada desprevenida, uma pessoa, ficaria a pensar «até que enfim temos um Governo firme na defesa dos interesses nacionais», não fosse o caso desta declaração ser contraditória com as muitas que, anteriormente, este ministro foi fazendo, para atingir o mesmo lamentável objectivo.

Tratou-se da resposta às perguntas dos jornalistas sobre se, face ao anúncio do Presidente da República francesa de que reconhecerá o Estado da Palestina em Setembro, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o Governo português lhe seguiria as pisadas.

Independentemente das razões que levam Macron a anunciar que vai reconhecer e não a reconhecer de facto e de imediato, a questão é que, ao longo dos últimos meses os governos portugueses, este como o anterior, nos disseram que ainda não era o tempo de proceder a esse reconhecimento exactamente porque a posição de Portugal devia ser concertada com os outros países da União Europeia.

Enquanto Israel continua a matança sem freio, à bomba, a tiro ou à fome, enquanto o horror nos entra casa adentro sob a forma de imagens de centenas de crianças esquálidas, a chorar por um pouco de comida ou já sem forças para isso, o Governo português, que se borrifa para a soberania nacional em todas as dimensões da sua acção, descobriu agora esse pretexto para justificar a sua inacção e cumplicidade, de facto, com tal situação.

Assim como, pelos vistos, descobriram agora o drama humanitário muitos dos comentadores de televisão e mesmo dos jornalistas que, nos últimos dois anos, ignorando o percurso criminoso de Israel nas sete décadas que leva a ocupação ilegal do território da Palestina, encontravam justificações para o genocídio que, dia após dia, se foi consolidando ao olhos do mundo.

Descobriram agora a ignomínia de sempre da posição dos EUA de apoio ao martírio de um povo? Descobriram agora o silêncio cúmplice da União Europeia? Descobriram agora a morte que é a única linguagem que Israel sabe usar?

Esperemos que descubram também a luta e a resistência dos povos que nunca regateou esforços na solidariedade com o heróico povo Palestiniano.

 



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