Um passo na luta para compensar o desgaste rápido na indústria
Com a discussão, na AR, do reconhecimento de profissões de desgaste rápido na indústria, com medidas de compensação, os trabalhadores e a FIEQUIMETAL/CGTP-IN deram continuidade à luta, que vai prosseguir.
Os trabalhadores não vão desarmar, nesta sua nobre exigência
A subida do tema ao plenário parlamentar, no dia 3, foi suscitada por uma petição, com mais de 13 mil assinaturas, recolhidas pela federação e os seus sindicatos, nas principais empresas de sectores como a indústria automóvel, a fabricação de material eléctrico e electrónico, as indústrias química e farmacêutica, o tratamento de águas e resíduos.
Desde as 14 horas dessa quinta-feira, centenas de trabalhadores concentraram-se junto da escadaria do Palácio de São Bento, exibindo faixas e bandeiras e gritando palavras de ordem.
«No dia da entrega da petição, a 18 de Setembro, ficou aqui assumido o compromisso de continuarmos a reivindicar, nas empresas e junto dos grupos parlamentares, que estas profissões sejam consideradas de desgaste rápido, com melhores condições de acesso à reforma» e «vimos hoje dar continuidade a esta luta», disse Hélder Pires, o primeiro dirigente sindical a tomar a palavra.
Do palco móvel ali instalado, recordou que, nas audiências com quase todos os grupos parlamentares e numa audição em comissão, «quase todos os partidos apoiaram esta justa reivindicação». Chegou a altura de «ver quem realmente está do lado dos trabalhadores».
A grande adesão à greve na VW Autoeuropa foi destacada e saudada por Nuno Santos, enquanto Fernando Sá e João Pedro descreveram os riscos a que estão expostos os trabalhadores da Continental Mabor e da Exide (Tudor).
A sublinhar algumas passagens das intervenções, soaram palavras de ordem, como «Trabalhar com qualidade, reformar com dignidade», «Patrões a enriquecer, os trabalhadores a adoecer», «É preciso que isto mude, envelhecer com saúde».
O coordenador da FIEQUIMETAL veio sublinhar que «a luta, hoje, não se limita ao que estamos aqui a fazer», pois «está a ter uma grande expressão» em greves «na VW Autoeuropa, na Tudor Exide, na Mitsubishi e em muitas outras empresas». Rogério Silva, também membro da Comissão Executiva da CGTP-IN, enalteceu a «muita coragem» demonstrada, quer por quem veio à concentração, «com esta temperatura violenta», quer por quem decidiu fazer greve.
Desta forma, frisou, «os trabalhadores estão a mostrar ao patronato que não vão desarmar, nesta sua nobre exigência de reforma antecipada, porque são vítimas de trabalho desgastante e penoso, de ritmos de trabalho inaceitáveis e desumanos, e são também portadores de doenças profissionais, desde as musculoesquelécticas a problemas de audição, de visão e até oncológicos». Rogério Silva assegurou que «não vamos parar com esta luta, até sairmos vitoriosos com a nossa reivindicação, mais que justa e merecida».
Para lá das «lágrimas de crocodilo»
O Secretário-Geral do PCP, Paulo Raimundo, esteve junto dos trabalhadores, saudando a sua luta, ainda antes de se iniciar o debate no Parlamento. Em breves declarações aos jornalistas, salientou que há mais de 800 mil trabalhadores em regime de turnos, «com todo o desgaste físico e mental que isso significa e as consequências que tem na vida familiar», o que «precisa que haja uma compensação, para além da salarial».
E, se «estes trabalhadores estão a exigir que, com o reconhecimento de profissões de desgaste rápido, se possam reformar mais cedo e sejam também mais valorizados pelo trabalho que fazem», o PCP fez a sua parte na AR. Paulo Raimundo contou que «acompanhamos a petição, apresentámos propostas nesse sentido e não vamos abdicar delas, independentemente do que se passar no Parlamento».
Previu, a propósito, que «vamos ouvir discursos de lágrimas de crocodilo, que os trabalhadores fazem muita falta e são muito importantes, tudo blá-blá», pois, «no fim, vão-se alinhar, como na semana passada, contra o encerramento do grande comércio aos domingos e feriados». Mas tal desfecho «não retira justeza às reivindicações nem a urgência de as concretizar», acentuou, reafirmando que «cá estamos para esse combate».
Pouco depois, na tribuna da AR, o deputado comunista Alfredo Maia observou que, «não obstante os avanços em eficiência e em produtividade das máquinas», «quando chega à reforma, o trabalhador vai já demasiado doente para a aproveitar com qualidade de vida». Num projecto de resolução, o PCP defendeu «a regulação dos horários de trabalho e a garantia de adequados períodos de descanso; a regulamentação de medidas de prevenção e de mitigação da penosidade e do desgaste; a previsão de um regime de bonificação por tempo de serviço para efeitos de reforma; a recolocação dos trabalhadores com doença profissional e o reforço das contribuições da entidade patronal para a Segurança Social».
A votação das iniciativas legislativas, suscitadas pela petição, teve lugar na sexta-feira, dia 4. As bancadas do PSD, do CDS e do PS reprovaram todas.




