Critérios? Quais critérios?
A marcha “Cumprir a Constituição. Aumentar salários e pensões. Para uma vida melhor”, em Lisboa e no Porto, marcou a semana que passou e constituiu a maior acção realizada por um partido desde as eleições legislativas.
Os decisores de critérios editoriais habitualmente argumentam que a definição da cobertura mediática de um acontecimento resulta de múltiplos factores, desde a relevância ou representatividade de quem o protagoniza, a dimensão da participação ou a relevância noticiosa do seu objecto. Quanto à participação, as imagens (que não as mostradas pela comunicação social) falam por si e justificariam plenamente um relevante destaque nos alinhamentos noticiosos. Face ao histórico recente em que acções com umas poucas centenas de participantes ocuparam páginas na imprensa, antes e depois da sua realização, para lá de generosos directos televisivos, este critério justifica plenamente uma robusta cobertura mediática da marcha.
Pesemos então o critério da relevância ou representatividade: mais do que o indiscutível papel, presença e intervenção do PCP na sociedade portuguesa, destaca-se a dimensão do abaixo-assinado entregue ao primeiro-ministro no início da acção em Lisboa, subscrito por mais de 140 mil pessoas, por todo o País, cara a cara, nos últimos meses. Como termo de comparação, das petições criadas no último ano na principal plataforma online para o efeito, apenas uma tem mais assinaturas – com a enorme diferença de os 140 mil apoios ao abaixo-assinado promovido pelo PCP terem sido recolhidos através de muitas mais conversas levadas a cabo por todo o País.
Resta, nesta análise superficial, ponderar o critério da relevância noticiosa do objectivo da marcha: dar expressão às reivindicações em torno dos salários, das pensões, do poder de compra, dos serviços públicos constantes no abaixo-assinado entregue na residência oficial do primeiro-ministro por uma delegação do PCP. Todas estas são matérias que marcam a actualidade nacional, com presença habitual no espaço mediático. Assim, está feito o bingo dos critérios que justificariam uma expressiva presença na imprensa, rádio e televisão. É, portanto, incompreensível o que se verificou antes, durante e após a marcha. À excepção de um directo na RTP3 e de uma antecipação na TSF, a iniciativa só teve presença mediática inserida em peças televisivas em que respostas do Secretário-Geral foram inseridas, em conjunto com outros dirigentes partidários, sobre temas do dia. Não houve uma imagem televisiva que mostrasse a dimensão da participação, em Lisboa ou no Porto, ou da entrega do abaixo-assinado.
A única fotografia que chegou às páginas dos jornais do dia seguinte, no Correio da Manhã, foi acompanhada de mais um episódio trágico-cómico revelador do estado da imprensa nacional: a legenda, incompreensivelmente, referia uma acção pelo encerramento das grandes superfícies comerciais ao domingo, que de facto aconteceu ali ao lado, mas durante a tarde e promovida pelo CESP. Esconder a iniciativa do PCP torna mais fácil teorizar sobre a sua «queda irreversível», mas não torna realidade os desejos de quem o faz.




