Mais que meros papalvos
Há questões em que a força das evidências retira nexo àquela metáfora que nos diz ser preciso tirar o chapéu para se descobrir a careca. A cimeira da NATO aí está para o provar. Removidos jogos de sombra para consumo das respectivas opiniões públicas, harmoniosas fotografias de família perturbadas aqui ou ali por um outro encosto ou um pôr-se em bico dos pés, não há margem de engano, quer quanto a quem ali manda, quer a quem serve. Tudo razões para que soe a falso este aparente mal-estar face à insolente e arrogante expressão usada por Mark Rutte junto a Trump do «vão pagar e em grande».
A mensagem é tão só a diligente prestação de contas devida ao dono, alcançado que estava o que se havia determinado. Claro que o «vão», tendo sujeito aparente na “Europa”, em bom rigor são os povos os destinatários, os que hão-de «pagar em grande». Poder-se-ia concluir que perante o descaramento da asserção, que em terras nossas conheceu a variante «ai aguentam, aguentam», os restantes figurantes da Cimeira mais se assemelhem a um punhado de papalvos, de cauda a abanar para gáudio de quem veio do outro lado do Atlântico.
Nada de mais errado: o que ali se reúne num misto de subserviência colectiva não são propriamente cidadãos levados ao engano, mas sim quem com convicção age e partilha dos mesmos objectivos, quem pagando os desmandos belicistas dos EUA o faz com essa ambição de deixar de ser peça menor na estratégia de dominação imperialista, quem aposta na escalada de guerra e se dispõe ao papel de diligente servidor da indústria de armamento. Apagados os holofotes, arrumadas as salas, desmobilizada a panóplia de segurança convocada para proteger as criaturas, agora será o tempo de vir para casa evangelizar as opiniões públicas sobre perigos externos, invasores eminentes, inimigos à espreita, para assim melhor iludir que serão os povos e os trabalhadores quem pagará esta factura militarista, que será à custa dos seus direitos que se irá construir as “metas” pré-determinadas para dar cumprimento aos que tendo no armamento negócio próspero, assim continuem, prosperando.
Também por cá veremos Governo e sucedâneos, contando ainda com os que se reclamando da social-democracia ou da “esquerda moderna” têm no seu pretenso «europeísmo» – em substância o federalismo e militarismo que o conformam –, explicação para se associarem ao coro de apoio ao que Trump e NATO determinam.




