Imediatismo e sensacionalismo

O imediatismo e o sensacionalismo são duas faces do aparelho mediático profundamente nefastas ao direito à informação – não o direito a informar, sustentado na liberdade de imprensa, mas o fim a que se destina, o direito de todos ao acesso a uma informação plural e rigorosa.

O recente ataque dos EUA ao Irão proporcionou novos episódios num caminho divergente da concretização desse direito. Por opção deliberada ou facilitismo (com grande probabilidade, numa conjugação variável destes dois factores), as estações de televisão, através dos canais informativos que têm de alimentar 24 horas por dia, encheram emissões com comentadores, “analistas” e “especialistas”: os mesmos que temos visto passar pelos ecrãs televisivos a opinar sobre tudo um pouco. Registe-se um episódio caricato protagonizado pela CNN Portugal: um dos rostos que vão aparecendo amiúde em vários canais a comentar a actualidade política nacional, habitualmente apresentado como analista político ou designações idênticas, surgiu na passada segunda-feira, rotulado como especialista em direito internacional, opinando sobre vários aspectos relacionados com a situação no Médio Oriente. Sem surpresa, alinhou com a opinião predominante em defesa do acto de guerra criminoso perpetrado pelos EUA.

Dias antes, na SIC, foi emitida uma reportagem do correspondente da estação em Israel a entrar num abrigo com o seu cão, pretendendo ilustrar o drama vivido na sequência dos ataques iranianos. Em contrapartida, não é possível ver reportagens sobre a forma como os civis iranianos têm vivido os bombardeamentos israelitas ou sobre a vida de cada um dos mais de 55 mil palestinianos vítimas do extermínio que as forças de ocupação israelitas levam a cabo desde Outubro de 2023, quase metade crianças. Haverá quem, cinicamente, argumente que tal sucede por Israel ser um “oásis” de democracia e liberdade de imprensa no Médio Oriente. A esses respondem os factos: mais de 200 jornalistas assassinados pelas forças sionistas na Palestina neste período; órgãos de comunicação social estrangeiros, como a Al-Jazeera, banidos de Israel; desde 2021, o genocida Netanyahu só dá entrevistas a jornalistas que trabalham para o canal de extrema-direita, segundo a Repórteres Sem Fronteiras; os únicos jornalistas autorizados a entrar em Gaza são integrados nas Forças de Defesa de Israel, que exercem o papel de censores.

Esta mesma organização terrorista de Estado tem garantido presença recorrente nas televisões nacionais através de um dos seus vários membros dedicados à propaganda sionista, sendo repetidamente entrevistado na qualidade de porta-voz do exército genocida. Igualmente escandalosa foi a forma acrítica, quando não laudatória pela voz de certos comentadores militares, como foram tratadas as declarações de Trump e seus amigos sobre o poderio invencível das forças armadas norte-americanas – não pela gabarolice, mas pelo que tudo isto contribui para a normalização e glorificação da morte e destruição.

 



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