Pantomineiros

Jorge Cordeiro

Fazendo prova de que cada coisa, por melhor e radiosa que seja, não se livra de um reverso de maior ou menor negritude, a pantomina – com o seu significado e valor próprio de expressão cultural – viu-se também condenada a arcar com o sentido figurado e pejorativo que nos remete para quem recorre à dissimulação e ao engano, usando a mentira para ludibriar outros.

Os pantomineiros, esses que preenchem o espaço mediático com comentários, opiniões, análise e até suposto teor informativo, sempre com aquele ar de independência e de novidade por mais evidente que seja o mero papagueamento do que as centrais de informação dominante decidiram transformar em opinião e pensamento únicos. Com essa particularidade de dizerem hoje, sem pestanejar, o contrário do que antes afirmaram.

Vale a pena lembrar o que se disse a propósito da guerra na Ucrânia e comparar com o que agora as mesmíssimas bocas dizem sobre Israel e as suas acções genocidas e de agressão: registemos, não tanto para memória futura mas para efeitos presentes, o que sobre uns se disse e diz quanto ao compreensível “direito de defesa preventiva”, à legitimação de “impor uma mudança de regime” ou ao manuseamento de vocábulos como “invasão”, “incursão”, “acção punitiva” para agigantar criticas ou justificar procedimentos.

Deixando de lado, ainda, a estafada conversa sobre armas de destruição massiva hoje invocadas para pretexto à agressão ao Irão com a fiabilidade argumentativa que em 2003 se conheceu no Iraque, o que a esta gesta de pantomineiros, pródigos na inquisitorial postura do “condena ou não condena, condena ou não condena” se exige é que sejam tão claros e prontos na condenação de Israel, dos seus crimes de guerra, do genocídio e nas agressões a países diversos que promove, como o PCP o foi face à acção militar da Rússia e a todo o processo belicista da NATO que a ela levou.

 



Mais artigos de: Opinião

Meia dúzia de exemplos

Privatização generalizada, liquidação de direitos, ainda maior dependência e periferização (incluindo a turistificação integral do País – “por todo o território e ao longo de todo o ano”), servil alinhamento com o imperialismo EUA/NATO/UE: programa do governo AD. Nuns lados fala com clareza. Noutros com dissimulação e...

Obsessão subversiva

Mantêm actualidade as questões dos serviços de informações, aqui consideradas em apenas duas vertentes. Primeiro, a nomeação, em fins de 2024, pelo primeiro-ministro Montenegro, do novo Secretário Geral do Sistema de Informações (SIRP), Vitor Sereno, que fica na sua dependência. Trata-se de um diplomata com um percurso...

O «trabalho sujo»

Ao comentar a agressão de Israel ao Irão, à margem da reunião do G7 que se realizou dia 17 no Canadá, o belicista chanceler alemão, Merz, agradeceu o «trabalho sujo que Israel faz para todos nós», entenda-se «todos nós», as grandes potências imperialistas que formam este sinistro conclave. Na verdade, e ao contrário do...

Ventando

“A verdadeira tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. A frase é atribuída a Platão, filósofo do século IV a.C., que mais de 2400 anos depois continua a surpreender-nos com a acuidade do seu pensamento. Nestes tempos em que as trevas se adensam e a cavalgada para o abismo parece inexorável, a Alegoria da...