A solidariedade não cessa até que a Palestina seja livre

O Dia internacional de solidariedade com o povo palestiniano, assinalado a 29 de Novembro, deu o mote a diversas iniciativas de denúncia do genocídio e da ocupação e de exigência de criação do Estado da Palestina – independente, soberano e viável. Em Lisboa, no Porto e em Coimbra houve concentrações promovidas pelo CPPC, a CGTP-IN, o MPPM e o Projecto Ruído – Associação Juvenil, e por todo o País multiplicaram-se as acções.

É urgente criar o Estado da Palestina nas fronteiras anteriores a 1967

O dia 29 começou com o hastear da bandeira da Palestina no Castelo de São Jorge, em Lisboa, acto simbólico de solidariedade com o povo palestiniano decidido pela Câmara Municipal, resultante de um voto proposto pelo PCP e aprovado por maioria, com a oposição do PSD e do CDS.

Os vereadores comunistas, João Ferreira e Ana Jara, estiveram presentes quando o estandarte subiu ao topo do mastro e explicaram o significado daquela acção: foi mais uma forma de expressar solidariedade com o povo palestiniano, vítima de métodos de guerra consistente com características de genocídio, e de denunciar todas as violações dos seus direitos. Com a bandeira vieram as exigências de um cessar-fogo imediato e permanente, da entrada sem restrições da ajuda humanitária, de cumprimento das resoluções das Nações Unidas e dos direitos que estas reconhecem ao povo palestiniano – questões essenciais para uma paz justa e duradoura no Médio Oriente.

Esta foi ainda uma forma de corrigir a injustiça de há cerca de um ano, quando a bandeira do Estado de Israel ondeou no castelo lisboeta, colando a cidade e um dos seus mais reconhecidos símbolos ao genocídio, à agressão sistemática, à ocupação.

Concentrações no dia 29
Ao final da tarde, realizaram-se quase em simultâneo três concentrações de solidariedade com a Palestina e o seu povo (extensível, por razões evidentes, aos povos do Líbano, da Síria e do Iémen). Em Lisboa, no Porto e em Coimbra, largas centenas de pessoas reafirmaram o que têm exigido ao longo dos últimos 14 meses – cessar-fogo imediato e permanente, fim do genocídio, entrada sem restrições de ajuda humanitária –, e também das últimas décadas: o fim da ocupação e dos seus instrumentos (postos de controlo, muro de separação, colonatos, prisões administrativas); a libertação de todos os presos palestinianos nas prisões de Israel; a criação do Estado da Palestina nas fronteiras anteriores a 1967, com Jerusalém Oriental como capital; e o direito ao regresso dos refugiados.

Nas três acções foi lida uma mesma intervenção, comum às quatro organizações promotoras – o CPPC, a CGTP-IN, o MPPM e o Projecto Ruído – Associação Juvenil –, na qual se recordava que «a agressão, a ocupação dos territórios palestinianos, a expulsão do povo palestiniano da sua terra, os crimes contra este povo e contra os seus direitos nacionais, não cessaram um só dia destas quase oito décadas. Aquilo que estamos hoje a testemunhar é mais um capítulo do rol de crimes de Israel». Este capítulo chama-se “genocídio”, confirmado pelo próprio Tribunal Internacional de Justiça, que «em resposta ao caso apresentado pela África do Sul (já apoiado por dezenas de países), decretou, com carácter obrigatório, que Israel garanta que “as suas forças armadas não cometam quaisquer” actos genocidas em Gaza». Entretanto, acusaram, «o genocídio não cessa e não cessam as prisões em massa», como não cessam «a expansão dos colonatos na Cisjordânia» ou os «verdadeiros pogroms dos colonos israelitas» e das forças armadas de Israel na Cisjordânia.

Denunciou-se ainda que Israel «viola sistemática e impunemente o direito internacional e incontáveis resoluções da ONU», sendo por isso um Estado «fora-da-lei» e um «fautor de guerras e ingerências – não só contra a Palestina, mas também contra o Irão, a Síria e o Líbano. Estes crimes, recordaram as organizações promotoras, «só são possíveis devido ao apoio dos Estados Unidos da América e à cumplicidade da União Europeia».

Em Lisboa intervieram ainda o libanês Firas Masri e a palestiniana Dima Mohammed, para quem a tenaz e corajosa resistência dos seus povos traz a semente da vitória, que será celebrada com todos quantos, por esse mundo fora, fazem sua a causa da liberdade da Palestina e da paz no Médio Oriente.

A solidariedade não tem dia marcado
Ainda no dia 29 foi concluído e inaugurado um grande mural na Rua da Voz do Operário, em Lisboa, construído com o contributo de muitas pessoas e entidades, entre elas as que convocaram as concentrações e muitas outras que nelas participaram. Em Ponte de Lima e na Póvoa de Varzim, o CPPC promoveu duas sessões sobre a luta do povo palestiniano.

Mas como a solidariedade não tem dia marcado, antes se expressa sempre que é necessária, as acções não se limitaram ao dia 29. No sábado, 30, o Projecto Ruído promoveu em Lisboa o concerto “Acordes pela Paz”, que contou com a participação de mais de uma centena de pessoas, que assumiram para si a luta contra a guerra, pelo desarmamento, por uma Palestina livre e independente.

A presidente da associação, Inês Reis, destacou que o «povo palestiniano sofre na pele, há 76 anos, a destruição do seu território, das suas casas, das suas oliveiras, dos seus hospitais, escolas e faculdades». E recordou a luta dos jovens palestinianos, que «querem voltar a crescer na Palestina, longe da guerra e da chacina, querem voltar a correr nas ruas de Gaza, prosseguir os seus estudos, e sonhar com o seu futuro e com as suas ambições».

Outra dirigente, Inês Caeiro, apresentou o concerto, valorizando as actuações musicais da noite – Riot, Rita Vian e Expresso Transatlântico –, artistas que se somaram ao «coro de vozes pela paz, que cresce dia após dia».

Horas antes, em Lisboa, realizou-se uma manifestação promovida por várias organizações e colectivos.

 

É possível, urgente e necessário pôr fim ao genocídio em curso às mãos de Israel, mas que ocorre com a cumplicidade e hipocrisia da chamada comunidade internacional, da União Europeia e do nosso Governo português. Há poucos dias, assistimos à possibilidade de um cessar-fogo no Líbano, que saudamos naturalmente, e que demonstra que também é possível alcançar um cessar-fogo imediato em Gaza, na Palestina. Já chega daquele sofrimento. Já chega, é demais.”

Paulo Raimundo na concentração de Lisboa junto à Embaixada de Israel

 

“Só a UNRWA, a agência da ONU de assistência aos refugiados palestinianos no Médio Oriente, tem a seu cargo a assistência a mais de cinco milhões. E daí a sanha de Israel contra a UNRWA, que constitui a prova viva da existência de refugiados palestinianos em resultado do seu crime fundacional.”

“Estamos aqui para protestar contra o facto de, há bem poucos dias, um membro do governo português ter recebido a vice-ministra dos Negócios Estrangeiros de Israel, quando se escusou a receber Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os Territórios Palestinianos ocupados. Para reclamar do governo português que cesse a colaboração de qualquer natureza, e sobretudo militar, com Israel. Para reclamar do governo português que se associe às diligências visando a suspensão de Israel da ONU até que cumpra as resoluções da ONU e o direito internacional.”

“Estamos aqui para exprimir o nosso repúdio pela política genocida do Estado sionista de Israel e para impedir a limpeza étnica da Palestina. Para exigir um cessar-fogo imediato e permanente na Faixa de Gaza, a entrada sem restrições de ajuda humanitária. Para exigir o fim da ocupação e dos colonatos, o fim dos pogromes na Cisjordânia, a libertação dos milhares de presos palestinos, o fim do apartheid. Para exigir o fim imediato da agressão israelita contra o Líbano. Estamos aqui para exigir o fim da cumplicidade com a política assassina de Israel por parte dos chamados «países ocidentais» e em primeiro lugar dos Estados Unidos. Para exigir a suspensão do vergonhoso Acordo de Associação União Europeia-Israel.”

da intervenção das organizações promotoras

 

Ainda é possível a poesia?

Se te roubam a terra

se te cercam o mar

se o céu não to roubam

que o não podem roubar

mas to enchem de fogo

que te chega do ar

e a casa desaba e os pais tos esmaga

e os filhos te mata

a mulher a gritar,

que palavras te escutam

no meio das ruínas

da escola ou da casa

ou do novo hospital?

No meio do medo

do choro e dos brados

que te pões a pensar

que te ouvem jurar?

João Pedro Mésseder


(…) Aqui ficamos

Como um pesado muro sobre os vossos peitos

Nós famintos

Que não temos que vestir

Nós vos desafiamos.

Cantamos as nossas canções

Percorremos as ruas violentas com as nossas manifestações de raiva

Enchemos as prisões com dignidade e orgulho

Continuamos a ter filhos

Uma geração revolucionária

Depois de outra

Como se fôssemos vinte impossibilidades

Em Lydda, em Ramla, na Galileia! (...)

Tawfiq Zayaad, poeta palestiniano


Para que eu escreva poesia

que não seja política

eu devo ouvir os pássaros

e para ouvir os pássaros

os aviões de guerra devem

estar em silêncio

Marwan Mkhoul, poeta palestiniano

 

(alguns dos poemas declamados no dia 29, nas concentrações de Lisboa e do Porto)

 



Mais artigos de: Em Destaque

XXII Congresso do PCP começa no dia 13 de Dezembro

A pouco mais de uma semana do início do XXII Congresso do PCP, que tem como lema «Força de Abril. Tomar a iniciativa, com os Trabalhadores e o Povo. Democracia e Socialismo», o Avante! adianta algumas informações úteis a delegados e convidados.